Três mitos sobre alimentos orgânicos

Luana Caires
21.07.2011

Nem tudo que é orgânico é bom para você, foto: London Permaculture

O consumo de produtos orgânicos está em alta. Apesar de, via de regra, serem bem mais caros do que os alimentos cultivados de forma tradicional, estima-se que nos últimos anos a venda de orgânicos certificados no mundo todo tenha saltado para cerca de 52 bilhões de dólares. Só no Brasil, esse setor faturou 350 milhões de reais em 2010, ou 40% a mais do que no ano anterior, segundo dados da ONG Organics Brasil.Cada vez mais as pessoas estão optando pelo que consideram hábitos mais sustentáveis e saudáveis.

Porém, na opinião de Christie Wilcox, autora do blog Science Sushi da revista Scientific American, há excessos na defesa dos orgânicos. Ela elogia as suas vantangens como evitar a monocultura, promovendo a rotação de solo cultivado e plantações mistas. Mas ataca o que considera 3 mitos sobre eles:

 

1. Fazendas orgânicas não usam pesticidas

Quando a Soil Associantion – organização inglesa que difunde o cultivo e consumo de alimentos produzidos de forma sustentável – fez uma pesquisa sobre o motivo que levava os britânicos a comprar produtos orgânicos, 95% dos participantes responderam que pretendiam evitar o contato com agrotóxicos. No entanto, a principal diferença entre a produção orgânica e a tradicional não é o uso de pesticidas, mas a origem dos pesticidas utilizados.

Enquanto a agricultura tradicional usa agrotóxicos sintéticos, a orgânica utiliza toxinas derivadas de fontes naturais. É comum a ideia de que substâncias encontradas na natureza são, de alguma maneira, menos agressivas ao meio ambiente do que aquelas criadas pelo homem. Porém, as pesquisas científicas mostram que os pesticidas naturais também podem prejudicar a saúde.

A Rotenona, por exemplo, foi usada na agricultura convencional e na orgânica por décadas até que pesquisadores concluíram que a exposição a essa substância está relacionada ao desenvolvimento da doença de Parkinson e tem potencial para provocar a morte de várias espécies, inclusive dos humanos. Com isso, a utilização da Rotenona como pesticida foi proibida nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a substância pode ser utilizada somente mediante autorização do órgãos reguladores responsáveis.

É preciso estar atento ao fato de que, mesmo que você consuma produtos cultivados sem qualquer tipo de pesticidas, isso não significa que sua saúde esteja completamente livre de riscos, pois os alimentos orgânicos tendem a ter níveis mais altos de agentes patogênicos. Um estudo realizado nos Estados Unidos encontrou E. Coli na produção de 10% das amostras vindas de fazendas orgânicas, enquanto apenas 2% daquelas vindas das culturas convencionais apresentaram a bactéria.  Isso porque uma parte dos produtores orgânicos utilizam o esterco como adubo, o que pode facilitar a contaminação.

No fim das contas, os orgânicos também dependem das condições em que são cultivados. Os métodos utilizados nas fazendas orgânicas variam muito de local para local — algumas delas não utilizam nem mesmo pesticidas naturais. Portanto, é importante escolher com cuidado o fornecedor dos seus alimentos, sejam eles orgânicos ou não.

2. Alimentos orgânicos são mais saudáveis.

Algumas pessoas acreditam que, por não usar químicos sintéticos, o plantio orgânico produz alimentos mais nutritivos e saudáveis. No entanto, os estudos científicos ainda não encontraram evidências de que isso seja verdade – e cientistas têm pesquisado sobre essa hipótese por mais de 50 anos.

Um estudo recente realizado no Reino Unido revisou sistematicamente 162 artigos publicados entre 1958 e 2008 que comparavam produtos orgânicos e não-orgânicos, mas não foi encontrada nenhuma diferença na concentração de 15 nutrientes, entre eles a vitamina C, o betacaroteno e o cálcio. Os pesquisadores constataram que alimentos convencionais apresentavam níveis maiores de nitrogênio, enquanto os orgânicos apresentavam mais fósforo e eram mais ácidos – fatores que não influem em sua qualidade nutricional.

Outra análise, desta vez feita com produtos de origem animal, como carne, laticínios e ovos, encontrou poucas diferenças no conteúdo nutricional desses alimentos. Os orgânicos, porém, apresentaram níveis mais altos de gordura, principalmente de gordura trans.

3. O cultivo orgânico é melhor para o meio ambiente

Esse tipo de agricultura tem vantagens, como o fato de não utilizar pesticidas sintéticos, mas isso não quer dizer que, apesar dessa característica, não possam ser prejudiciais ao meio ambiente.

Os produtores orgânicos, como regra, não aceitam os transgênicos, embora eles tenham o potencial de reduzir o uso de pesticidas e aumentar a produtividade das plantações e o valor nutricional dos alimentos – exatamente o que o cultivo orgânico procura fazer. No entanto, apesar de rejeitar os transgênicos, boa parte dos produtores de orgânicos recorre a artifícios como a aplicação de Bacillus thuringiensis (proteína de uma bactéria encontrada no solo) como inseticida. Essa é a mesma substância produzida por algumas das plantas geneticamente modificadas, com a vantagem de que, quando é produzida pela própria planta, a toxina não contamina o solo nem as reservas de água próximas às áreas de cultivo.

Mas o principal motivo pelo qual a agricultura orgânica não é mais verde do que a convencional é porque suas fazendas têm uma fração da produtividade daquelas que usam métodos industriais. Se o mundo decidisse produzir apenas alimentos orgânicos na mesma extensão de terra tomada hoje pela agricultura, o número de pessoas famintas poderia saltar de cerca de 800 milhões para 1,3 bilhão. Portanto, seria necessário aumentar a quantidade de terra utilizada pela agricultura e, para isso, avançar sobre habitats atualmente intocados.


Wilcox conclui que nessa seara as coisas não são preto no branco. Nem tudo o que é considerado orgânico é bom para o consumidor ou para o meio ambiente. Isso não condena a agricultura orgânica. Por tentar minimizar o uso de pesticidas e adubos sintéticos, pode ser que a longo prazo ela seja o caminho para a agricultura sustentável. Mas é importante poder questioná-la e mostrar suas falhas. 

 

Via: Scientific American

 

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– Ocorrência de salmonela é menor em frangos orgânicos

 



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17 respostas para “Três mitos sobre alimentos orgânicos”

  1. Francisco Pontual disse:

    Achei extremamente louvável a intenção de trazer transparência para o debate sobre agricultura orgânica e produção de alimentos. Mas atenção editores e leitores de O Eco, essa matéria, embora vinda da Scientific American (que é sabidamente uma revista de divulgação de ciência financiada por riquíssimas e influentes corporações multinacionais) é extremamente tendenciosa em favor da chamada industrialização da agricultura! Vou mencionar apenas algumas das mais flagrantes manipulações de informação em que os mitos de uma suposta agricultura orgânica foram substituídos pelos mitos da agricultura industrial (a tal que faz bem a saúde e vai “alimentar” o mundo).

    1) Apenas a Ag “orgânica” industrial usa pesticidas Chamar a agricultura pós-Segunda Guerra Mundial de tradicional é um engodo. Tradicionais são as formas de agricultura baseadas em grande diversidade de cultivares, rotação e consórcio de cultivos, adubação orgânica principalmente através do consórcio de agricultura com pastoreio intercalado, uso de controle biológico para garantir a saúde da lavoura e das pessoas que nela trabalham e vão consumir os alimentos, etc. Todas essas características da agricultura pré-Segunda Guerra Mundial remontam às origens da agricultura há cerca de 10mil anos atrás. Portanto quem é tradicional e quem é a agricultura industrial baseada em fertilizantes e defensivos químicos? Aqui no Central Valley da California existem enormes fazendas "orgânicas" que em tudo se assemelham às fazendas industriais chamadas de convencionais. São baseadas em monoculturas, intenso uso de combustíveis fósseis na produção de alimentos e, pasmem, aplicação maciça de fertilizantes e pesticides (como informa corretamente a material de O Eco)! Esses aditivos são aprovados pelos órgãos certificadores de produtos orgânicos pois seus princípios ativos são de origem orgânica e supostamente biodegradáveis. Mas sem dúvida que este tipo de agricultura "orgânica" industrial é baseado no modelo convencional e apenas maquiado para atender a demanda crescente por produtos orgânicos. Portanto, não se pode usar este tipo de agricultura industrial como referência de agricultura orgânica que tem sido capaz de manter a humanidade e o planeta vivos e sadios por milhares de anos.

    2) A agricultura convencional e a sua total dependência no uso abusivo de fertilizantes e pesticidas químicos mata milhares de camponeses por ano!!! O Brasil é o campeão mundial de consumo per capita de agrotóxicos com 5,2l por habitante. E grande parte dos agrotóxicos utilizados aqui são proibidos nos países que os fabricam e exportados por algumas das multinacionais que financiam a Scientific American. E a matéria sugere que alimentos produzidos de forma tradicional são menos saudáveis?? Menos saudáveis para as finanças da Monsanto, Cargill e outras?

    • Cecile disse:

      Excelente Francisco. Provavelmente a matéria da Scientifc American foi direcionada para insuflar medo e pavor na já tão sofrida agricultura familiar no Brasil, já que só quem produz produtos orgânicos são as propriedades com menos de 10 hectares.

  2. Francisco Pontual disse:

    Tentei postar a continuação do meu comentário três vezes e recebi a mensagem de que foi deletado pelo administrador!! Vamos aumentar o diálogo ou cerceá-lo?

    • Francisco, suas contribuições são elegantes, informativas e bem-vindas. Não houve qualquer tentativa de deletar seus comentários.

      • Francisco Pontual disse:

        Ok Eduardo, obrigado pela sua atenção. Acho que meus comentários estavam sendo deletados automaticamente devido ao tamanho. Curiosamente recebi uma mensagem alertando sobre isso na primeira tentativa de postagem, mas depois todas as minhas tentativas, por menor que fosse o texto foram bloqueadas. Deve ter sido um bug do sistema. Abs!

  3. Francisco Pontual disse:

    3) A cada década uma nova família de agrotóxicos tem de ser desenvolvida porque as pragas desenvolvem resistência e precisam ser combatidas com venenos ainda mais nocivos ao meio ambiente, agricultures e consumidores. A destruição da estrutura física e perda de fertilidade dos solos promovida pela agricultura industrial e sua total falta de gerenciamento sustentável desses recursos provoca envenenamento de lençol freático, morte de rios, e degradação ambiental e humana em proporções biblícas. Como se não bastasse, a matéria informa erradamente que alimentos trangênicos necessitam de menos fertilizantes e pesticidas, quando é sabido que as corporações que desenvolvem os trangênicos já lançam o pacote de semetes patenteadas, com seus respectivos fertilizantes e pesticidas que escravizam o produtor, envenenam o consumidor e destroem a biodiversidade rural. Porque será que os EUA passaram 20 anos votando contra os interesses da maioria dos países do mundo para incluir no rótulo dos alimentos a existência de transgênicos. Aqui no círculo acadêmico Americano o que se diz é que a questão é puramente de ordem jurídica e financeira. Ou seja, se as corporações que produzem e comercializam os transgênicos realmente acreditassem que seus produtos não são prejudiciais à saúde, não fariam oposição à maior transparência nos rótulos. Por outro lado, se a indústria não tem certeza dos efeitos dos seus produtos faz sentido se precaver e evitar a possibilidade de rastreamento futuro quanto doenças podem vir a ser associadas ao consumo de transgênicos. Diante da gravidade de tudo isso, ainda sugerir que trangênicos são menos prejudiciais ao meio ambiente é pura manipulação dos fatos, e não ciência imparcial.

  4. Francisco Pontual disse:

    O que a matéria não mencionou é que, a agricultura industrial, como o agribusiness brasileiro, produz commodities para exportação, quase sempre subsidiados pelo impostos de todos nós. Ou seja, a verdadeira agricultura tradicional e familiar que sempre foi orgânica (e dá sinais de estar retornando às origens) é responsável pela produção dos alimentos mundiais e não recebe quase nenhuma atenção e apoio oficial. Essa agricultura nasceu sustentável e foi levada a utilizar aditivos químicos pela maciça propaganda desenvolvimentista sem responsabilidade socio-ambiental. Parafraseando o final da matéria, o importante é saber que existe um outro lado da história da agricultura convencional, criada para fazer uso das fábricas de munição e gás mostarda após a Segunda Guerra Mundial, inventando uma necessidade nunca de fato sentida, de se utilizar fertilizantes e pesticidas quimicos que fizeram uma incalculável fortuna nos países aliados durante o pós-guerra. Quem achar que químicos utilizados em armas de guerra podem trazer paz, saúde e prosperidade no campo que continue comendo granadas em forma de tomates com molho à base de Roundup.

  5. Onildo disse:

    Tem todos os elementos de uma matéria paga… Falta de rigor científico, contém sério viés contrário a um dos lados avaliados e avalia apenas um lado da história. Enfim, carece de credibilidade.

  6. Leda disse:

    Parabenizo o tipo de discussão. Extremamente útil pata todos nós, interessantes argumentos foram colocados para podermos refletir sobre o tema.

  7. Marcelo Bastos disse:

    Cara Luana, discordo sobre a questão dos transgênicos, recente estudo sobre uso de glifosato e outros herbicidas nos EUA mostraram que não houve redução dos seus usos nas áreas de transgênicos. Outro ponto, das intervenções feitas no meio ambiente com o nome de agricultura, a modalidade orgânica é a que traz o menor impacto pois ela abrange também a manutenção de matas, de plantas invasoras benéficas e vida no solo. Li o estudo sobre a igualdade em termos nutricionais de produtos orgânicos e não orgânicos, mas o que faltou nesse estudo publicado na BBC foi todos os resíduos que o alimento não orgânico contém, maléficos a saúde. As maçãs são iguais mas somente uma tem veneno ! Qual vc comeria ?

    Sou engenheiro agrônomo e estou aqui para contribuir, reflitam o seguinte. A mesma empresa que fabrica os agrotóxicos fabrica os remédios, por que será ? O que ela ganha com isso ? Quer maneira melhor de empobrecer e cegar o agricultor do que empurra-lhe um pacote tecnológico ? O mundo tropical é o mesmo mundo temperado ? As dinânimas biológicas são iguais ? O Brasil é o segundo pais que mais consome agrotóxicos, estamos seguros com isso ? Muitos agrotóxicos proibídos no hemisfério norte são usados aqui normalmente, porque as empresas que pregam o chavão da fome mundial não seguem a mesma política em todos os países ? e aí vai… pensem.

    O assunto é muito mais complexo e belo que uma análise superficial.

  8. organicossaocarlos disse:

    Parabéns a todos pelos comentários, muito mais realistas e coerentes que a matéria da "renomada" Scientific American. É muito gratificante saber que existem pessoas de bom senso que não acreditam em tudo que lêm só porque está numa revista "famosa". Engraçado que quando se fala no chavão da "fome mundial", coincidentemente ninguém menciona que na realidade não há FALTA de alimento, mas sim MÁ DISTRIBUIÇÃO E MUITO DESPERDÍCIO! E dizem que se todos consumissem como os americanos, os reis da agric. industrial, transgênicos, e cia., seriam necessários 6 planetas. Que belo exemplo de sustentabilidade, de uma população que está cada dia mais obesa e sem saúde (e o Brasil está no mesmo caminho)!

  9. Diogo Busnardo disse:

    Fico feliz em saber que existem pessoas que ainda lutam contra a manipulação do SISTEMA!! Só fico triste em saber que nenhuma dessas pessoas teve voz ativa no debate sobre o "novo" Código Florestal quando o deputado Aldo Rebelo utilizou-se de argumentos fajutos e nitidamente comprados culpando as Ongs estrangeiras de quererem barrar o aumento da agricultura brasileira porque os paises desenvolvidos não querem concorrência.Uma mentira deslavada quando se sabe que quem mais ganhará com a aprovação do código, são as grandes corporações multinacionais que dominam e desovam suas sementes fertilizantes e agrotóxicos pra cá e pro mundo todo!! Agora é tarde… Com a rainha da moto serra Kátia Abreu no senado e a insegurança política com os recentes escândalos dos ministros da Dilma, esse código será aprovado no senado e NÃO será vetado pela presidenta. e assim vamos caminhando para o fim!!

  10. Lucas disse:

    Muito bom o nível de discussão.
    Visitem esse Blog abaixo, ele contem muitas informações sobre toda essa problematica de transgênicos, grandes corporações, monocultura entre outros. É só buscar pelo tema agricultura.
    docverdade.blogspot.com

  11. Alexandre disse:

    O conteúdo da discussão dos que comentaram o artigo original (inglês) é extremamente informatívo, contendo links de estudos científicos que desmentem as conclusões de cada tópico apresentado.

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