No meio do caminho havia outra árvore

Karina Miotto
26.05.2011

São Paulo - em frente a uma escola, a árvore teve suas raízes concretadas, foto: Karina Miotto

Uma caminhada pelas ruas das cidades, não importa se Belém ou São Paulo, e o problema da arborização urbana tem a mesma raiz: ignorância.

Para mim, árvore não é uma coisa qualquer.  Um negócio com galhos, mera produzidora de madeira, flores, frutos e folhagens que para muitos “sujam” o chão. Não é e jamais será empecilho. Só que, quanto mais me envolvo nessa luta literária para salvá-la, mais me deparo com a ignorância que mata aos poucos, judia, destrói.

Moro em Belém. As árvores que representam esta cidade são as mangueiras, que muitos cidadãos fazem questão de ver como pedra no sapato. Alienados à sombra protetora contra o calor quase diário de uns 30 graus, motoristas estacionam seus carros sob as copas e reclamam o corte quando uma manga cai sobre seus veículos aparelhados com ar condicionado.

Uma jornalista do jornal O Liberal, o mais famoso da cidade, me contou em tom de confissão na semana passada que já recebeu denúncias de quem aplica veneno nos troncos das mangueiras para matá-las logo. Isso sem falar na quantidade de lixo e entulho que belemenses teimam em deixar sobre a base destas árvores na falta de lixeiras apropriadas espalhadas por uma cidade amazônica onde seus moradores, de fato, não parecem se importar com imundície.

 

De corpo inteiro, a bela árvore das raízes sufocadas, foto: Karina Miotto

Saio de Belém do Pará, Amazônia, viajo para São Paulo, Mata Atlântica, e me deparo com o mesmo tipo de ignorância. Dizem que quem mora na capital é mais letrado, mais instruído. Que aqui existem todas as oportunidades, terra do conhecimento e da cultura ininterrupta. Pois em uma rua de um bairro tranquilo de classe média existe uma árvore enorme. Caminhando por ela, me deparo com uma copa daquelas de encher os olhos. Não sei qual é sua espécie. Admiro, intimamente agradeço a sombra que ela faz.

Olho para a sua base. Que concreto bonito. Foi bem escolhido, quem cimentou em volta da base inteira deve ter feito isso com esmero, sob o olhar supervisor da dona da escola, um berçário – que mau exemplo às crianças. Mal nascem e já podem começar a achar que árvore bonita, é árvore com base cimentada.

Toco a campainha. Sai de dentro um segurança. Peço para falar com a diretora. Em sua ausência, ele começa a me fazer uma série de perguntas – quem sou, onde moro, meu nome, o que quero falar, porque quero falar. “Não adianta falar com você, amigo, você não vai resolver o problema dessa árvore”. Ele insiste, eu explico. “A base está toda cimentada. Ela não está conseguindo se alimentar. Sem se alimentar, atrai cupim e com cupim pode ficar ocada. Se continuar assim, essa árvore um dia poderá cair”. Ele ri e bate o portão na minha cara.

 

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Catracas de metrô podem virar fonte de energia

Luana Caires
14.04.2011

Alunos premiados com bolsa de estudos de R$ 15 mil, foto: Divulgação

A cada dia útil do ano passado, 2.56 milhões de pessoas, em média, passaram pelas catracas de metrô da cidade de São Paulo. E se todo esse movimento fosse convertido em energia? Foi essa ideia criativa que rendeu aos alunos de administração da FEI (Fundação Educacional Inaciana) a vitória no concurso EDP University Challenge 2010 – promovido pela primeira vez no Brasil por uma das maiores empresas européias do setor de energia e a quarta maior do país.

Para participar, os estudantes tiveram que elaborar um plano de marketing para a EDP. Mas o grupo da FEI, formado pelos alunos Renato Góis Figueiredo, Lucas Rodrigues Lamas e Tatiana da Silva, foi além e sugeriu o uso de geradores elétricos acoplados às catracas do metrô e de trens. “Assim como a água passa pelas turbinas de uma hidrelétrica gerando energia, as pessoas passarão pelas catracas e portas giratórias e terão os seus movimentos transformados em eletricidade. É algo simples e eficiente e que utiliza fonte de energia limpa”, explica Renato. A escolha de estações de metrô se deu justamente por serem lugares onde transitam milhões de paulistanos.

Depois de identificar o interesse da empresa em associar a marca EDP ao conceito de geração de energia limpa, os alunos da FEI desenvolveram um plano de comunicação integrada de marketing com o slogan “Bom para o planeta, melhor para você”. “A nossa intenção é conscientizar o público de que a empresa reconhece a importância da energia limpa e associar esse conceito à marca EDP”, destaca Renato. Os alunos foram premiados com uma bolsa de estudos no valor de R$ 15 mil e um estágio de três meses na sede da EDP no Brasil, com possibilidade de intercâmbio na Europa.

Como se tratava de um projeto de marketing, os universitários da FEI não discutiram em seu trabalho um mecanismo que pudesse transformar energia cinética em elétrica, nem analisaram a viabilidade de se instalar esse tipo de catracas no metrô de São Paulo. Mas estudantes chineses já desenvolveram um protótipo capaz de viabilizar o plano dos brasileiros.

A Green Pass, uma catraca energeticamente autossuficiente, foto: Divulgação

 

Aparentemente a Green Pass é uma catraca normal, porém é capaz de produzir toda a energia de que precisa para funcionar. O seu giro permite que as pessoas façam parte do processo de conversão de movimento em energia elétrica, possibilitando a utilização de cartões magnéticos, a inserção de moedas, bilhetes ou permitir que a catraca conte o número de pessoas que passam por ela. Esse engenho dos alunos da Guangdong University of Technology já venceu várias competições nacionais e internacionais de Design, incluindo o Prêmio Conceito Alemão IF, considerado o Oscar do Desenho Industrial. Não seria ótimo ter algumas dessas por aqui?

 

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São Paulo: medicamentos ganham programa Descarte Consciente

Luana Caires
30.03.2011

Não é balinha doce, SP compra cerca de 170 milhões de medicamentos por mês, foto: Pranjal Mahna

É inevitável. Ao fim de um tratamento de saúde é comum sobrar medicamentos e aí vem a pergunta: o que fazer com os eles? A resposta é importante. Segundo a Anvisa, só na capital paulistana são vendidos no varejo 170 milhões de produtos farmacêuticos por mês. Faz pouco tempo, remédios vencidos ou em desuso iam parar no lixo comum ou no vaso sanitário, hábito que pode causar a contaminação da água e do solo por substâncias químicas. Mas, desde o final do ano passado, foi inaugurado o programa Descarte Consciente.  Aprovado pela Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo, o projeto é criação da Brasil Health Service (BHS), empresa de tecnologia e inovação em saúde, em parceria com a rede Droga Raia e a Medley. Ele já conta com 13 postos de recolhimento de fármacos na cidade de São Paulo. Além disso, as Unidades Básicas de Saúde da Prefeitura de São Paulo também recebem medicações fora de uso. Os pontos de coleta estão em expansão. Na capital, A rede Pão-de-Açúcar e a Drograria São Paulo estão criando seus próprios programas. Fora dela, o Descarte Consciente já tem 3 pontos em Limeira (SP) e, em breve, deve chegar a Belo Horizonte e Porto Alegre. A prefeitura do Rio de Janeiro também foi procurada, mas até agora não manifestou interesse.

Todos os postos de recolhimento são equipados com a Ecomed, uma estação coletora de resíduos de medicamento. A estação oferece três compartimentos de depósito: um para pomadas e comprimidos, um para líquidos e sprays e outro para caixas e bulas, que devem ser rasgadas antes do descarte. Os coletores têm aberturas do tipo boca de lobo e portas com fechamento a chave, impedindo a retirada do material depositado. Antes de fazer o descarte, o consumidor registra o tipo do medicamento que deverá depositar por meio do leitor de código de barras da Ecomed, sistema que permite o rastreamento de remédios controlados evitando que esse tipo de medicação seja desviada e revendida ilegalmente.

Estação de recolhimento Ecomed

Os dados registrados na máquina são usados para a elaboração do preservômetro – um índice que permite ao consumidor acompanhar quanto foi recolhido e quais os benefícios dessa coleta para o meio ambiente. De acordo com estimativas do pesquisador e sócio da BHS, Joe Roseman, cada quilo de medicamento recolhido deixará de contaminar 450 mil de litros de água e, segundo projeções do especialista, cerca de 186 toneladas devem ser coletadas no primeiro ano de funcionamento do programa.

É importante lembrar que mesmo as embalagens primárias – aquelas que entram em contato com a medicação – são consideradas como resíduos perigosos, já que podem ter sido contaminadas, e devem ser descartadas corretamente junto aos remédios.

Da Ecomed, o material é levado pelo Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb), órgão gerenciador dos serviços prestados na cidade de São Paulo, para a destinação final correta. Medicamentos vencidos e produtos químicos são enviados para usinas de incineração certificadas, enquanto seringas e agulhas são encaminhadas para uma usina de tratamento para serem descontaminadas e, em seguida, são mandadas para aterros especiais.

Urnas coletoras das farmácias do grupo Pão de Açúcar, foto: Divulgação

O Descarte Consciente já chegou a Limeira, no interior de São Paulo,  e sua implantação em Belo Horizonte e Porto Alegre já está sendo negociada. O número de postos de descarte ainda deve crescer bastante. Segundo o diretor-presidente da BHS, José F. Agostini Roxo, a rede Droga Raia pretende alcançar a marca de 200 lojas equipadas com a Ecomed. Espera-se que o programa chegue também ao Rio de Janeiro, mas ainda não foi possível chegar a um acordo com os gestores da capital carioca. “No Rio de Janeiro não é feito esse tipo de coleta e, ainda assim, a prefeitura está nos dizendo que não vai se comprometer com o recolhimento e a destinação final do material”, afirma Roxo.

Outras redes já têm projetos-piloto ou pensam em iniciá-los. O Grupo Pão de Açúcar, em parceria com a Eurofarma, inaugurou postos para descarte de medicamentos no fim de 2010 em cinco drogarias dos seus supermercados. Se esse projeto piloto for bem sucedido, o serviço deve ser estendido às 154 lojas do grupo que têm farmácias em suas instalações. Já a Drogaria São Paulo, líder no varejo farmacêutico no país, já está em negociação com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo para oferecer o recolhimento de remédios em suas lojas.

 

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Sampa: site promove mobilidade sustentável entre estudantes

Luana Caires
17.03.2011

A plataforma entrou no ar há menos de um mês e já conta com 1000 rotas cadastradas

Ser universitário nem sempre é fácil. Além de dar conta da rotina de estudos, muitas vezes é preciso se deslocar várias vezes pela cidade: de casa para a faculdade, da faculdade para o estágio, do estágio para o curso de línguas até chegar em casa no fim do dia. Mas uma plataforma online de mobilidade urbana sustentável pretende facilitar o deslocamento dos estudantes de São Paulo. O Campus Aberto reúne informações sobre as rotas dos cadastrados, promove a articulação de caronas e permite que seus usuários organizem-se para dividir um táxi ou para pedalar juntos até o seu destino.

A ideia de criar o site surgiu no ano passado depois de uma visita à Alemanha, que, apesar de ser o décimo  país mais motorizado do mundo, tem uma mobilidade extraordinária. “O que a gente reparou é que os alemães combinam muito bem a mobilidade deles, usando vários meios de transporte diferentes”, afirma Lincoln Paiva, um dos criadores da plataforma. E é essa a missão por trás do projeto: incentivar a formação de cidadãos multimodais que realizem os seus deslocamentos da forma mais sustentável e mais barata possível. Lançado pelo Instituto de Mobilidade Verde (IMV), o Campus Aberto conta com o apoio do Catraca Livre, da Secretaria do Verde e Meio Ambiente e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Para participar, basta estar matriculado em uma das 140 universidades cadastradas no sistema e se inscrever no site. O usuário coloca o endereço de onde deve partir e seleciona que tipo de transporte pretende usar. Se quiser procurar por uma carona, por exemplo, o mapa mostra os estudantes dispostos a levar passageiros em seus veículos. É só clicar na opção que melhor se adéque ao seu trajeto que o próprio Campus Aberto notifica esse universitário pedindo que entre em contato com o solicitante. Então, cabe ao motorista e ao caroneiro combinar um ponto de encontro.

A página entrou no ar há menos de um mês e já conta com 1.000 rotas cadastradas. “Estamos tendo muitas negociações de carona. E o número está equilibrado. Nós achávamos que o número de pessoas pedindo carona seria muito superior, mas está em torno de 70%, o que a gente considera uma porcentagem relativamente baixa”, conta Paiva. O potencial da plataforma é grande. Só na capital paulista, o número de estudantes matriculados nas universidades passa de 1 milhão, de acordo com dados do Ministério da Educação.

Por enquanto, a participação está restrita aos universitários, mas a expectativa é de que, no futuro, ela seja estendida ao público em geral e  a outras localidades. “A ideia é analisar a demanda e acompanhar de perto como os usuários estão fazendo para se deslocar. Dentro de alguns meses devemos incluir também rotas de metrô e de ônibus”, completa Paiva.



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“A poluição mata mais em São Paulo que AIDS e tuberculose somadas”

Luana Caires
24.02.2011

Paulo Saldiva; foto: Instituto Saúde e Sustentabilidade

No Brasil, 80% da população está nas áreas urbanas, mas os efeitos da falta de políticas ambientais e do crescimento desordenado das metrópoles na saúde dos seus habitantes ainda são pouco discutidos. Tentando mudar essa realidade, o Instituto Saúde e Sustentabilidade lança o livro Saúde e Meio Ambiente: o desafio das metrópoles. O Ecocidades conversou sobre esse assunto com o coordenador da obra, Paulo Saldiva, professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e membro do Comitê da OMS que definiu os novos padrões de qualidade do ar. Na área metropolitana de São Paulo, estima-se um excesso de 7 mil mortes por ano decorrentes de problemas causados pela poluição do ar – número maior do que os de AIDS e tuberculose somados. O livro será lançado nesta sexta-feira, 25 de fevereiro, em São Paulo*.

Como surgiu a ideia de lançar o livro?

Esse projeto do Instituto Saúde e Sustentabilidade pretende reunir em um só lugar informações de múltiplas fontes, para permitir às pessoas se inteirarem sobre o tema. A ideia era pegar os milhares de trabalhos científicos que estudam o efeito das condições de vida nas megacidades sobre a saúde. Isso engloba falar sobre ilhas de calor, o perigo de morar em regiões com riscos de inundações e deslizamentos e a política de formar cidades cada vez menos compactas – o que obriga a construção de uma enorme infraestrutura de mobilidade e de fornecimento de água e esgoto. A ideia era traduzir isso em uma obra clara, para quem não tem formação técnica no assunto e que oferecesse uma visão global dos problemas. Queremos que os cidadãos vejam essa fotografia. No momento em que a discussão é trazida para perto das pessoas, elas se interessam.

Nesse trabalho são abordados problemas principalmente de São Paulo. Por quê?

Nós escolhemos São Paulo primeiro por ser uma megalópole que teve um crescimento desordenado e, segundo, por contarmos com bom um banco de dados sobre ela. Cada grande cidade tem seu diagnóstico particular e complexo. Aqui a velocidade do trânsito é baixa, as ilhas de calor estão preservadas, o nível de poluição está demonstrado. Todo mundo sabe o que faz mal e o remédio não é tomado. Depois, gostamos de São Paulo e queremos melhorá-la. É muito fácil gostar da Gisele Bündchen, ela não precisa nem abrir a boca… O duro é você gostar de São Paulo, que tem muito problemas e nenhuma beleza natural evidente.

Se o remédio é conhecido, por que não é usado?

Os interesses econômicos dentro da cidade de São Paulo são muito poderosos. É o lugar onde um quarto do combustível do Brasil é vendido, é onde se encontram as sedes dos maiores grupos financeiros e é onde, digamos, a polêmica entre a aparente divisão entre desenvolvimento e sustentabilidade ocorre com maior intensidade. Existem soluções para tudo, você pode facilmente colocar combustível limpo na frota de São Paulo. Ou poderíamos pegar a Avenida Paulista e dividi-la em duas metades, com corredores exclusivos para ônibus, como fez o prefeito de Bogotá. Mas também existe um problema cultural. As pessoas ainda estão esperando uma solução milagrosa, uma solução tecnológica. E sozinha a solução tecnológica não vai resolver. É preciso mudar hábitos.  Se isso não acontecer, os gestores terão que tomar medidas muito impopulares. Imagine o dia em que utilização de automóveis na Paulista for restringida. Acho que vai ter uma forte campanha contra. E o prefeito que fizer isso não vai se eleger mais para nada, nem para síndico de prédio. Ninguém em sã consciência vai tomar medidas que comprometam para sempre o seu futuro político.

Qual é a magnitude do problema da poluição do ar?

No Brasil, de modo geral, está melhor porque houve melhoria tecnológica. Mas em algumas áreas piorou. É o caso do campo, por conta das queimadas, uso intensivo de pesticidas e, também, por menor fiscalização. Nas grandes cidades tende a melhorar, mas ela ainda é suficiente para causar problemas. Estima-se um excesso de 7 mil mortes ao ano na região metropolitana de São Paulo e  4 mil na capital. Esse número é maior do que os de AIDS e tuberculose somados, que são considerados problemas de saúde pública. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que, entre as causas evitáveis, a poluição do ar mata mais do que cigarro. Embora o cigarro seja muito pior do que a poluição do ar, o seu risco se aplica apenas aos fumantes, enquanto a poluição atinge a todos.

Como a poluição afeta a saúde do indivíduo?

A poluição do ar age da mesma maneira que o cigarro, só que em menor escala. Causa e piora doenças respiratórias, causa câncer de pulmão, doenças coronarianas e aumenta o número de partos prematuros…. A diferença é que quando você põe todo mundo para respirar ar poluído, aumenta o número de vulneráveis. A poluição do ar é a mais democrática das poluições. No caso da água contaminada, só é afetado quem tem contato direto. É possível comprar água engarrafada ou ter uma estação de tratamento. Não existe uma estação de tratamento do ar, nós temos que lidar com o ar que nós temos.

O que o paulistano deve fazer para se proteger?

Os cuidados que cada um pode tomar vão depender da sua condição financeira. Do ponto de vista da exposição, é recomendado evitar os horários de pico e minimizar o seu tempo de permanência nos corredores de tráfego. Mas se o indivíduo bate ponto fica meio difícil. O que se pode fazer é praticar um pouco mais de exercício físico, que é anti-inflamatório e melhora as defesas contra a poluição. Também é bom beber mais água, porque tanto a parte respiratória quanto a cardiovascular se beneficiam da hidratação. Em relação à alimentação, deve-se ingerir frutas e tudo o que envolve betacaroteno e vitamina E. Há estudos mostrando que crianças e adultos adeptos a uma dieta rica em antioxidantes naturais mantêm uma saúde melhor.

Quanto tempo de vida pode perder uma pessoa que mora em São Paulo?

Ela pode sofrer uma redução de mais ou menos 9 a 10 meses para cada 10 microgramas de material particulado fino inalado. Isso significa que a expectativa de vida em São Paulo aumentaria em um ano e meio caso a gente tivesse a poluição de Recife, por exemplo.

E qual é o impacto que a poluição do ar no orçamento público destinado à saúde?

Na cidade de São Paulo a poluição do ar custa, considerando as internações no SUS, de 180 a 200 milhões de reais por ano. Se multiplicar esse valor por três, ou seja, cerca de 600 milhões de reais, você chega ao número do SUS somado ao das redes conveniadas. Se contabilizar a mortalidade precoce, que contabiliza a perda do valor de anos produtivos, esse custo ultrapassa 2,5 bilhões de reais. A conta que se faz é que, no nível em que estamos hoje – de poluição intermediária –, para cada real investido em controle de poluição você economiza de R$7 a 8 em gastos de saúde nos cinco anos subsequentes. Não existe nenhum investimento público hoje com taxa de retorno tão alta. Defendemos igualmente que esse enorme custo da poluição, hoje pago por todos, deveria ser pago por quem polui. Agora, não adianta ficar só apelando para a responsabilidade social e ambiental das empresas. O compromisso delas é diferente, é com o lucro. Ninguém vai prejudicar os seus acionistas em nome de uma causa ambiental vaga.

Que tipo de medidas de curto prazo podem ser tomadas para melhorar a situação da cidade?

Embora com atraso, algumas já começaram, como a expansão da malha do metrô. É possível investir em transporte público de qualidade e na criação de corredores de ônibus. O governo municipal já proibiu, a partir de 2018, sua frota de utilizar combustíveis fósseis. Houve um avanço grande recente, mas ele foi circunstancial, porque o Secretário Municipal do Meio Ambiente é médico. Assim, certas providências não foram fruto de um diálogo institucional, mas de um feliz acaso. E boa política pública, de longo prazo, não se faz a partir de acasos felizes.

Existe um descompasso entre a produção científica e a formulação de políticas públicas?

Sim, a Universidade de São Paulo está entre os cinco grupos que mais publicam no mundo sobre poluição do ar e saúde e, apesar disso, nós não temos conseguido controlar de forma adequada a poluição, mostrando que a universidade falhou em criar mecanismos que influenciem as políticas públicas. Além disso, a qualificação dos nossos gestores, do ponto de vista técnico, não é das melhores – e olha que nós temos uma agência ambiental muito sofisticada que é a Cetesb. Fazer vigilância ambiental ainda não entrou na agenda do Brasil. E não somos apenas nós. Pouco se faz na América Latina e África mesmo que, de acordo com a OMS, as condições ambientais sejam responsáveis por 20% a 30% das causas evitáveis de doenças e mortes.

Qual a razão desse imobilismo?

Aqui a gente separou saúde e meio ambiente. Floresta faz parte da agenda ambiental, cidade não. Tiramos o homem do elenco das espécies a serem preservadas. Além disso, nós, pesquisadores, temos muita dificuldade de diálogo com o sistema público. Na academia, o horizonte é de longo prazo. Eu posso fazer um projeto que demora seis anos para ser concluído e não depende da mudança de prefeito. Então, você progride, mesmo a passos lentos. A burocracia interna das universidades, incluindo a USP, faz com que as pesquisas andem em velocidade de lesma paralítica. Mas quando chega a parte do governo, a velocidade é de lesma paraplégica, porque lá o peso dos interesses econômicos é muito maior. Mesmo assim, a produção científica faz diferença. Não fomos o único fator, mas as informações desse grupo de pesquisa da USP influenciaram a revisão dos padrões de qualidade do ar da cidade de São Paulo. Acho que se São Paulo pode mudar, o Brasil também pode.

 

* O lançamento é aberto ao público e acontecerá às 19h na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, 278 – 9º Andar, São Paulo




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O papelão da 25

Victor Moriyama
29.12.2010


 
 
Desço na estação São Bento do Metrô, principal acesso ao transporte público, e me deparo com um mar de pessoas, guarda-chuvas coloridos e sacolas plásticas em abundância. A cena é carnavalesca, mas a data comemorativa é o Natal, e ela lança as pessoas em um frenesi de consumo. Entre a diversidade dos transeuntes, formam-se pilhas de lixo colossais nas esquinas do entorno.

É dia 23 de dezembro de 2010, data limite para compras de final de ano e último dia em que as lojas da Rua 25 de Março permanecem abertas com horário estendido. A rua é o maior ponto de comércio popular da cidade de São Paulo. A chuva e o mau tempo não intimidaram o seu público, que superlotou o local como em outros natais. Para os comerciantes dezembro é um mês crucial, pois as vendas aumentam entre 30% e 50% em relação ao normal.

As pessoas se movem e se esgueiram rápidas em busca das novidades e das pechinchas. Não têm tempo para pensar nas toneladas de lixo que geram com suas compras. A quantidade de caixas de papelão descartadas é o melhor indício da extravagância em curso. Os lojistas as eliminam para ampliar o espaço no interior dos comércios e acomodar mais clientes.

Aos poucos escurece e muda a atmosfera. As lojas baixam as portas e os últimos consumidores se apressam de volta à estação São Bento. A noite do centro da cidade é associada à violência. Mas o que se vê é a substituição dos consumidores por um pequeno exército de catadores de lixo informais, ávido pelas sobras dos excessos dos outros. Eles ganham a vida enviando os restos de papel, plástico e metal para reciclagem.

Seu João, 66, mais conhecido como “Véio”, é um intermediário do ramo, dono, na prática, de um dos 6 pontos autônomos locais de compra e revenda de recicláveis. Munido de uma balança antiga e algum troco, ele compra papelão a 15 centavos o quilo e o revende a 20 centavos. O comércio informal dos catadores movimenta 30 toneladas de papel e alumínio por mês. Em dezembro, esse número pode chegar a 50 toneladas. Seu João tira um liquido mensal próximo de 1.500 reais.

Ele é o topo. Na base da pirâmide dessa atividade encontro Karol, 13 anos, e seu irmão Pedro Luis, 8, ambos estudantes. Meu estômago dói da tristeza de vê-los de perto, trabalhando nessas circunstâncias. Karol personifica a exploração de crianças na rede de reciclagem da região. Há cinco anos ela coleta e separa papelão para o mesmo comprador. “O preço dele não é dos melhores, mas ele paga certinho. Tenho medo de vender para outro”. A desenvoltura surpreendente com que relata seu cotidiano contrasta com a sua negativa ao meu pedido de fotografá-la. Tem vergonha da sua condição, me conta. A dupla de irmãos separa em média 250 quilos de papelão por dia, o que rende cerca de 30 reais.

Outros 60 catadores vivem do lixo local. Em geral, também são moradores de rua. Lúcio Batista, 43, catador faz 5 e morador de rua há 8 anos, está eufórico. Conseguiu um novo carrinho de madeira para facilitar a coleta. “Ter um bonito deste aqui é um privilégio. Vou poder separar muito mais papelão e diminuir a dor nas costas”. Os 60 quilos que deverá catar essa noite renderão 40% a mais do que nos outros dias. Não foi Papai Noel mas a chuva o benfeitor, encharcando e aumentado o peso da mercadoria.

Meia-noite. Na esquina da Rua Virgilina, a viatura da polícia intensifica sua ronda. Já se notam catadores exibindo cachimbos de crack pendurados na cintura, ao mesmo tempo em que bradam sons incompreensíveis que reverberam pela já deserta 25 de Março. Poucas horas antes, havia aqui uma multidão fervilhante. Agora, a rua foi tomada por um vazio assustador.
 
 
* Para proteger menores ou a pedido dos personagens, os nomes usados nesse texto são fictícios.



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Ar seco e poluição castigam São Paulo

Eduardo Pegurier
24.08.2010
Calota de Poluição SP Abril-2010

Calota de poluição/abril de 2010 - foto: Pétria Chaves

Os pulmões paulistanos estão pagando um alto preço pelas más condições atmosféricas dos últimos dias. Crianças, idosos e populações mais pobres são os mais atingidos. De maio a agosto, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou um aumento de 45% de internações por doenças respiratórias, conta o portal Terra. A Mooca, na zona leste da cidade, foi a região de pior qualidade do ar na última semana, registra o Movimento Nossa São Paulo, onde também está publicado um ótimo infográfico com o grau de poluição nas principais áreas da cidade durante esses dias. No último domingo, 22 de agosto, as internações no Hospital Infantil Cândido Fontoura, que fica no bairro, aumentaram de 216 para 416 crianças.

“Infelizmente, as pessoas que moram em São Paulo estão o tempo todo sob o efeito das variáveis climáticas e da poluição”, diz a meteriologista Micheline Coelho, na matéria Respiramos veneno do site !Isso não é normal. Ela produziu um modelo que relaciona condições metereológicas, poluição e ocorrências de problemas de saúde. Com ele, consegue prever o aumento de internações por problemas respiratórios com quatro dias de antecedência.

Abaixo a entrevista feita pelo !Isso não é normal com Paulo Saldiva, médico que coordena o Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP. Ele explica que para o mesmo aumento de poluição, a mortalidade nas regiões mais pobres cresce 12% contra 2% nas áreas ricas, uma diferença de seis vezes. Entre as razões, menos vegetação, que filtra a poluição, mais proximidade entre as moradias e o trânsito, veículos velhos que soltam muita fumaça e pior acesso a serviços de saúde. Como de hábito, a corda arrebenta do lado mais fraco.

Não deixe de ver também as referências em Tosse (ou socorro), no Outras vias.

!sso não é Normal – Paulo Saldiva



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Se São Paulo cumprisse lei de 1867 minimizaria enchentes

Eduardo Pegurier
04.08.2010

Existia bom senso há 143 anos. Se fosse seguida, uma lei promulgada por D. Pedro II, em 1867, teria feito grande bem à cidade de São Paulo, pois preservaria de construções a faixa de margem dos rios e córregos sujeitos a enchentes. Além de levantar essa lebre, as arquitetas Pérola Felipette Brocaneli, Mariana Voss Rossini e Samira Rodrigues, no artigo Os rios e a paisagem da cidade sustentável,  fazem um ataque contundente à construção de piscinões para conter as cheias de cada verão. Propõem como alternativa parques lineares, que seguem a margem dos rios.

Deve-se observar, com ênfase, que se a Lei 1507/1867 tivesse sido atendida para todos os rios e córregos e o poder público adotado os critérios de concessão dos chamados “terrenos reservados”, seguindo usos compatíveis com os possíveis alagamentos, estariam contemplados e protegidos todos os cinturões meândricos dos corpos hídricos.

Fonte: Os rios e a paisagem da cidade sustentável

Segundos as autoras, o custo de um piscinão é parecido ao de um parque linear instalado na faixa de preservação dos rios. Os últimos também conteriam as enchentes, recuperariam a mata ciliar, seriam benéficos para o micro clima e criariam áreas de lazer. Ao contrário, os piscinões descaracterizam a paisagem e são um estorvo para os moradores que moram a sua volta.  “Urbanisticamente são um desastre” e, como acumulam lixo, “assemelham-se a esgotos a céu aberto”, escrevem.

Os habitantes da região dos piscinões no Córrego Rincão, entre as estações do metrô Penha e Vila Matilde, lutaram contra a implantação dos mesmos em regime de urgência. Eles foram construídos em uma área que permaneceu desocupada depois da obra do metrô e que, por mobilização local, foi transformada em uma animado e bem equipado local de lazer, com quadras de futebol, volei, pista de corrida, bicicross e instalações cobertas. O governo passou por cima disso tudo e construiu os piscinões a toque de caixa, mas nunca realizou um novo projeto de lazer prometido aos moradores como compensação.

Esse artigo é o destaque da semana da Rede Global de Cidades Inovadoras, criada em março desse ano, e que já conta com mais 800 integrantes. A entrada é livre. Ficamos encantados com a riqueza de informações e debates nessa rede e recomendamos fortemente uma visita. Agradecemos a Eduardo Jankosz, um de seus membros, que deu a dica em comentário nesse site.

(Eduardo Pegurier)



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