Ipanema, purgatório da beleza e do lixo

Marcio Isensee
07.02.2011


 
São seis da tarde em Ipanema. Praia lotadíssima e, pena, descaradamente suja. O céu está de um azul imaculado e o sol ainda forte, devido ao horário de verão. Faço o trajeto do posto 9 até a pedra do Arpoador, conversando com frequentadores, trabalhadores das barracas e catadores de latas. No gogó, todo mundo concorda: o lixo na areia é um problema.

Os frequentadores parecem à vontade. Aproveitam a praia ao lado da sujeira, pisam e passam por cima de montinhos de lixo e dividem espaço com os muitos pombos que se aglomeram ao seu redor — como já disse o Woody Allen, ratos com asas. Presencio cenas de crianças que pegam garrafas, plásticos e outros detritos descartados e os usam como brinquedo no mar. Esse lixo ficará lá boiando por um bom tempo. Isso me faz pensar que uma grande parte do problema da praia está ligado aos tipos de produtos consumidos, com muita embalagem, sobras e desperdícios.

O pessoal das barracas me impressiona bem. Eles tentam fazer a sua parte. Distribuem saquinhos aos frequentadores, colocam lixeiras extras e cobram capricho do pessoal da Comlurb, a empresa pública responsável pela limpeza. Os catadores de lata, por necessidade, também ajudam. Conseguem tirar até R$ 150,00 em um dia. Como um quilo de lata — que contém 75 latinhas de cerveja ou refrigerante — vale entre 2,50 reais e 3,50, isso quer dizer que eles chegam a catar entre 3 mil e 4,5 mil latas por dia. É muuuuita lata! Como tem bastante catador (algo como 50, sou informado), sobram poucas jogadas na areia.

Enquanto fotografo sou “ferido em combate”. Estava andando pela areia, pisei em um palito de queijo coalho enterrado e cortei o pé. Acabei vítima das próprias mazelas que estou tentando documentar.

O trabalho da Comlurb é eficaz. Mas não adianta remediar, é preciso mudar o processo, entender porque se gera tanto lixo na praia. Ao mesmo tempo, é inexplicável porque apenas uns poucos frequentadores se dão ao trabalho de dar o devido fim aos detritos. Não há dificuldade.

Próximo às 20h, quando o sol se pôs, quase todos os banhistas restantes bateram palma, sorriram e celebraram mais um belíssimo dia na cidade. Ninguém olhou pra baixo e se preocupou com o lixo que ficou ali para a posteridade. Contraditório, não?



Tags: , ,




Há verde no morro do Alemão

Eduardo Pegurier
05.12.2010

Complexo do Alemão, 28 de novembro: dia de guerra - foto: AP/Felipe Dana

As fotos publicadas no The Big Picture, site de ensaios fotográficos do Boston Globe, contam a história visual da guerra que ocorreu faz uma semana. As imagens são fortes e narram magnificamente o episódio. Mostram bandidos e policiais armados até os dentes, corpos de quem “perdeu” naqueles dias e a população apavorada, tentando escapar do fogo cruzado. Felizmente, dessa vez, os policiais e as forças armadas agiram com estratégia e comedimento. E ganharam — esperemos — aquele enclave estrangeiro de volta para a cidade.

Pobreza e violência encurtam o horizonte das pessoas, no limite, à mera sobrevivência. É difícil pensar no futuro, até mesmo no próprio, em meio a tais premências. Mas despontando entre as casas sem reboco, as árvores da foto acima estavam lá, apesar de todos os problemas. Sugerem que as sementes de dias melhores já haviam sido plantadas, esperando apenas oportunidades.



Tags: ,




Animação mostra o Rio de Janeiro pelos olhos de uma arara

Eduardo Pegurier
04.09.2010

Carlos Saldanha, co-diretor do primeiro filme da série A era do gelo e diretor das duas continuações, está fazendo uma animação sobre o Rio de Janeiro, sua cidade natal. Nela, conta a história de uma arara — macho — que mora na gelada Minnesota e pensa ser a última remanescente de sua espécie. Quando descobre que no Rio existe outra, mas fêmea, se manda para lá. O problema é que, acostumada com a vida de gaiola, não sabe voar…

Assista ao engraçado trailer

* para ver com clareza as legendas em português, aumente para tela inteira



Tags:




Como era e como ficou a paisagem carioca

Eduardo Pegurier
05.08.2010

Onde fica o Maracanã nessa ilustração? - fonte: site Evolução Urbana - IPP

Como carioca, sempre imaginei qual teria sido o impacto sentido no peito pelos primeiros exploradores portugueses quando adentraram a Baía de Guanabara, no início do século XVI. Em 01 de janeiro de 1502, o que experimentou Gaspar de Lemos, comandante da expedição, quando deu o bordo derradeiro para chegar à terra firme?

Em 2000, finalmente tive a oportunidade de visualizar a paisagem com que se deparou na exposição  Paisagem Carioca, realizada no MAM (Museu de Arte Moderna). Um dos seus melhores momentos era uma animação em telão que mostrava a visão do mar de quem passava o Pão de Açúcar e penetrava a baía por águas límpidas, até se confrontar com intocadas praias e algumas das montanhas mais belas e verdes do mundo. A emoção não deve ter sido muito diferente daquela dos astronautas chegando à Lua, com a diferença que essa nave alcançava um pouso quente, cheio de vida.

A exposição já terminou há dez anos, mas acabo de descobrir o Evolução Urbana, um site excelente feito pelo Instituto Pereira Passos, órgão de planejamento e pesquisa do município do Rio de Janeiro, que, também através de animações, mostra a ocupação da cidade desde o seu início, isto é, pré-ocupação moderna, até os dias de hoje. Além disso, traz textos narrando a história dos marcos abordados.

Cada filminho mostra a evolução de um lugar. Clique em Maracanã ou Marina da Glória e se surpreenda ao ver como era a região antes de ser coberta de concreto. Veja a cidade surgir com toda a sua potência que dia a dia esmaga a natureza a sua volta e que fez as construções levarem, sem merecerem, o título de cidade maravilhosa, pois essa qualidade era anterior aos monstrengos que construímos.

(Eduardo Pegurier)

dica: Urban Demographics



Tags:




        Próximo