Sapatos modulares: o coringa da moda consciente

Luana Caires
08.08.2011

O "tênis-chinelo" lançado em 2007, foto: Nat2

Comprar um calçado que vale por cinco é o sonho de qualquer pessoa que gosta de variar o visual e preza pela praticidade. Pois é justamente essa a ideia por trás dos sapatos modulares: você paga por um, mas tem vários modelos diferentes à sua disposição. Basta combinar saltos, tiras e variar canos curtos e altos para adequar o seu par a cada ocasião.

Depois de lançar em 2007 um tênis que pode ser transformado em chinelo apenas com o deslizar de um zíper, a empresa alemã Nat 2 criou um tênis 4 em 1, que chegou até a ganhar o prêmio Red Dot em 2010 na categoria de melhor produto. Encaixando diferentes comprimentos de cano é possível usá-lo como um tênis-sandália, um modelo de cano baixo, um de cano alto e outro de cano longo. E, se você possuir mais de um par dessas belezinhas,  ainda é possível aumentar o número de combinações misturando componentes de cores diferentes para criar o seu próprio design.

Já a designer israelense Daniela Bekerman criou um protótipo com potencial para fazer um estrondoso sucesso entre a mulherada. Ela adaptou saltos removíveis à sola de uma sapatilha, a Ze o Ze, para transformá-la em poucos segundos em um sapato boneca de salto alto ou em um modelo estilo Oxford. São cinco opções diferentes que podem ser usadas tanto para enfrentar mais um dia de trabalho quanto para curtir um sábado de festa com os amigos.

A Ze o ze, cinco modelos diferentes em um só calçado, foto: Daniela Bekerman

E, para aqueles que costumam praticar exercícios regularmente, Ben Chappell criou um tênis de corrida que pode durar uma vida inteira. Ao contrário dos modelos convencionais, que muitas vezes não podem ser reciclados por conta da cola utilizada na sua fabricação, todos os componentes desse tênis são unidos por uma espécie de fechadura mecânica, o que significa que cada uma de suas partes pode ser removida, recuperada e reciclada. Assim, quando uma sola ficar gasta pode ser facilmente substituída por outra sem que o calçado precise ser aposentado.

Think, o tênis de corrida reciclável, foto: Divulgação

O ponto negativo desses dois últimos produtos é o fato de não estarem disponíveis para a venda, mas quem sabe não poderemos encontrá-los nas prateleiras em breve?

 

Veja também: 

– Ser sustentável está na moda

– No Fashion Rio, bons exemplos da incipiente moda verde

– Nada se perde, tudo se transforma



Tags: , , ,




No Fashion Rio, bons exemplos da incipiente moda verde

Fabíola Ortiz
10.06.2011

Sola de sapato biodegradável da Amazonas que se decompõe em 5 anos, foto: Fabíola Ortiz

No último Fashion Rio, entre 169 grifes, apenas duas abraçaram o conceito de moda verde que inclui linhas de produtos recicláveis, reutilizados e até biodegradáveis.

Uma delas é a grife mineira Raiz da Terra Green Co. que, desde 2003, aposta na produção de roupas e calçados com ênfase em reduzir o impacto ambiental. “A moda verde é a uma marca economicamente viável, socialmente responsável e ecologicamente correta”, explica a O ECO Cassius Pereira, diretor da marca, ao destacar que a preocupação ambiental perpassa por todo o processo produtivo.

Na hora de escolher os fornecedores, a empresa é criteriosa. Só usa tecidos 100% naturais, entre orgânicos ou reciclados. O tecido orgânico é aquele cuja matéria-prima foi cultivada sem agrotóxicos ou inseticidas, como, por exemplo, algodão, linho, cânhamo e bambu. Também são usados algodão reciclado ou poliéster de PET, tanto na linha de calçados como para shorts e saias. O couro é vegetal, feito de látex fornecido do interior de São Paulo ou de cooperativas extrativistas na floresta amazônica.

As práticas administrativas e de manufatura fazem parte da mudança, o que implica o uso de papel reciclado, redução do consumo de água, luzes de Led, reutilização de resíduos de tintura e uso ou revenda de retalhos de tecidos para cooperativas que confeccionam tapetes.

Um dos maiores vilões do processo de confecção é a etapa do tingimento, pois feito em larga escala consome grande quantidade de água potável e gera efluentes poluidores. O desafio da Raiz da Terra Green era racionar o uso de água e evitar o seu descarte sem tratamento. A saída foi investir numa tintura feita com matéria-prima natural a partir de cores extraídas de elementos minerais, raízes e folhas. Não funciona para tudo: “Existem ainda certas cores que não conseguimos obter com pigmentação natural, em geral as mais escuras, o preto principalmente, mas também o marrom e o grafite”, conta Pereira. Outra medida foi “reutilizar indefinidamente” a tinta, isto é, fazer um ciclo fechado de tingimento, reciclando a água e os pigmentos utilizados.

Quase todos os produtos são biodegradáveis, a não ser o poliéster de PET que é uma fibra sintética usada na produção de solas de sapato.

Tecido piquet em poliester reciclado de garrafas PET da Raiz da Terra Green, foto: divulgação

Falta preço e fornecedor

Na avaliação da pesquisadora e professora de design sustentável do SENAI, Vânia Polly, “A moda verde já foi uma tendência, agora é uma emergência. O desafio para o mundo da moda é combinar a sustentabilidade. A moda trabalha com descarte, com o ciclo de vida do produto e, por isso, tem que trabalhar o reuso e o reciclável”. O maior entrave ainda é encontrar fornecedores dos produtos certos, por exemplo, corantes biodegradáveis e tecidos orgânicos. Igualmente não ajuda o preço das peças verdes ser mais alto do que as convencionais.

Para os pés, moda biodegradável

A segunda marca a apresentar produtos sustentáveis no Fashion Rio foi a Amazonas, do interior de São Paulo, que trabalha com chinelos de borracha recicláveis. As rebarbas que sobram da fabricação e os calçados gastos são reciclados e viram piso de borracha ou xaxim ecológico.

A sola biodegradável no sapato é outra aposta pioneira da Amazonas. Ela se decompõe em 5 anos, enquanto uma sola comum leva 500 anos para se degradar. “O solado e a cola são biodegradáveis, à base de água”, explica Leandro Araújo, representante de marketing da empresa. O preço final do calçado fica cerca de 20% mais caro usando esses materiais e, segundo Leandro, o maior obstáculo é o receio do consumidor de que o produto se desmanche. Segundo ele, isso é descabido: “Fazemos testes em laboratório e o sapato cumpre as exigências habituais e tem a mesma duração de um calçado comum”.

Sandálias de borracha reciclável da Amazonas, foto: Fabíola Ortiz

 

Leia também:

Moda sustentável, uma agulha no palheiro

Concurso de reciclagem de jeans

O inimigo mora no armário

Muito além do modismo

Cooperativa mineira cria acessórios com design a partir de material reciclado

Nada se perde, tudo se transforma

Vestido de natureza



Tags: , ,




Cooperativa mineira cria acessórios com design a partir de material reciclado

Luana Caires
27.04.2011

Bolsas feitas de tecidos automotivos e cintos de segurança, foto: Divulgação

Foi-se o tempo em que peças feitas a partir de matéria-prima reutilizada eram sinônimo de produtos esteticamente caretas e mal acabados. Um ótimo exemplo são os artigos da Cooperárvore,  uma cooperativa social de Betim, Minas Gerais, que produz bolsas, carteiras, acessórios e até bandejas com resíduos de materiais utilizados na fabricação de automóveis, como cintos de segurança e estofados. Também são reaproveitados banners, lona de PET e tecidos naturais, como americano cru — um algodão rústico — e chita.

Criada em 2006, em parceria com as ONGs Fundação AVSI e CDM, a cooperativa faz parte do Árvore da Vida, programa desenvolvido pela Fiat Automóvel com o objetivo de  promover a inclusão social de jovens e adultos por meio de atividades socioeducativas e de geração de trabalho e renda no Jardim Teresópolis. Hoje, 27 famílias do bairro estão envolvidas com a Cooperárvore. “Trabalho fazendo uma das coisas de que mais gosto que é costurar”, afirma Wanda Aparecida Caetano Moreira. Wanda tem três filhos que também participam do projeto. “Vou trabalhar muito tranquila, pois meus filhos vão para escola na parte da manhã e à tarde voltam para as atividades do programa. Eles não têm tempo de ficar na rua”, completa. Na cooperativa são oferecidas oficinas de serigrafia, corte, costura e artesanato.

Sacola de compras, bandeja com almofada e porta squeeze da Cooperárvore, foto: Divulgação

A confecção dos produtos é coordenada pelo designer mineiro Igor Vilas Boas, mas as peças são resultado de um processo coletivo de criação em que as ideias de todos os integrantes do grupo são levadas em conta para que sejam produzidos artigos cada vez mais criativos e funcionais. Grande parte da matéria-prima é doada pela Rede Fiat de Cidadania e são feitas mais de 20 mil peças por ano, comercializadas na sede da cooperativa, em algumas lojas de Minas Gerais e pela internet.

Além de gerar renda para a comunidade, o projeto apresenta mais uma vantagem: o fato de oferecer ao consumidor artigos sustentáveis e de qualidade por preços entre 5 e 60 reais. Valores tão acessíveis são raros no mercado de produtos verdes.  Além do uso pessoal, está aí uma opção bacana para quem procura um presente útil, original e sustentável, sem o contrassenso de ter que gastar uma fortuna.

Carteiras e nécessaires práticas e acessíveis, foto: Divulgação

 

Veja também

Nada se perde, tudo se transforma

Direto do ferro-velho para o guarda-roupa

 



Tags: , , , ,




Etiópia exporta sapatos de pneu reciclado

Luana Caires
20.01.2011

Chinelos de algodão orgânico e sola de pneu reciclado da SoleRebels, foto: SoleRebels

Reaproveitar pneus velhos na confecção de chinelos e sandálias é um costume cultivado há décadas no segundo país mais populoso da África. Graças a uma jovem empresária, que uniu o know-how dos artesãos locais ao potencial de vendas da internet, essa atividade foi responsável pela geração de dezenas de empregos em Addis Ababa, capital da Etiópia.

Criada em 2004, a SoleRebels nasceu com o intuito de utilizar a matéria-prima local para produzir artigos sustentáveis. Como, na época, as companhias de calçados do país estavam lutando para competir com os baixos preços dos produtos importados da China, Bethlehem Tilahun Alemu – dona da marca – decidiu se concentrar no mercado externo.

Depois de a Solerebels ser reconhecida pela FLO-CERT como um empreendimento de comércio justo, a empresária começou a enviar pencas de emails e amostras dos seus produtos a lojas e sites de e-commerce americanos. Ela assinou contrato com empresas como a Whole Foods e a Urban Outfitters, que importavam seus sapatos isentos de impostos – com o incentivo do The African Growth and Opportunity Act –, mas o negócio realmente decolou quando a Amazon se tornou uma de suas revendedoras.

Prateleira da SoleRebels no Japão, foto: SoleRebels

Apenas cinco anos depois da aberta, a empresa já possuía 45 funcionários em período integral e uma produção de 500 pares de calçados por dia. Hoje, sua linha de sapatos feita a partir de algodão orgânico e sola de pneu reciclado é comercializada em 20 países. A marca prosperou no mercado externo contando apenas com uma linha de crédito oferecida pelo governo, essencial para que fosse possível atender às grandes encomendas que recebia.

Com o sucesso do empreendimento, Bethlehem pode pagar aos seus trabalhadores um bom salário para o padrão local – pouco mais de R$ 3 por dia para os estagiários e  quase R$19 por dia para os artesãos mais experientes – e ainda pôde investir na construção de uma fábrica de energia solar perto da oficina para permitir a expansão da produção.
 
Com informações do The Guardian
 
Veja também: Direto do ferro-velho para o guarda-roupa
 



Tags: ,




Ser sustentável está na moda

Luana Caires
13.10.2010

Pela terceira vez o Fashion Week de Nova York abriu espaço em sua programação para um evento totalmente dedicado à moda verde.  No The GreenShows, que aconteceu de 12 a 14 de setembro, dez designers mostraram que é possível reutilizar materiais e priorizar o uso de tecidos ecológicos com muito estilo, tendência que também tem chamado a atenção de alguns estilistas brasileiros.

Durante os três dias de desfiles foram apresentados modelos casuais e de alta costura, desde um simples vestido de algodão orgânico (cultivado sem agrotóxicos) a um vestido de noiva com cristais Baccarat reaproveitados de um antigo lustre. Mas uma das criações mais interessantes foi o Little Black Dress desenhado por Eliza Starbuck, da marca Bright Young Things.

Eliza criou um vestido de algodão e lycra  que pode ser usado 365 vezes sem repetir nenhum visual. O segredo é combiná-lo com leggings, calças, saias, casacos ou até mesmo outros vestidos. Parece brincadeira, mas o blog The Uniform Project prova que a ideia realmente funciona, só que a um preço salgado: a peça custa US$ 185.

Aqui no Brasil, alguns estilistas já se preocupam em produzir roupas ecológicas, mas, como lá fora, os preços só são sustentáveis por bolsos recheados. Em 2007, o designer Oskar Metsavaht, da Osklen, lançou o selo E-Fabric, que usa materiais com baixo impacto ambiental.  As peças são feitas a partir de tecidos de algodão orgânico, de fibras naturais, malha em pet reciclado e couro de peixes e de rãs. Mas é para poucos. Uma camiseta do selo sai por R$ 127 e um tênis de pele de salmão custa RS 897,00.

Marcas novas estão entrando nessa linha. A irmãs mineiras Renata e Silvia Drummond  lançaram, também em 2007, a grife ECOW (Ecological Conscience on Wearing).  A partir de todo tipo de retalhos e tecidos de segunda qualidade, elas criam coleções exclusivas que transformam materiais que seriam desperdiçados em peças modernas e criativas. As peças começam a partir de R$120,00.

A moda ecológica é uma boa notícia, mas faltam preços para quem busca um estilo de vida sem consumismo e ostentação.



Tags: ,