No meio do caminho havia outra árvore

Karina Miotto
26.05.2011

São Paulo - em frente a uma escola, a árvore teve suas raízes concretadas, foto: Karina Miotto

Uma caminhada pelas ruas das cidades, não importa se Belém ou São Paulo, e o problema da arborização urbana tem a mesma raiz: ignorância.

Para mim, árvore não é uma coisa qualquer.  Um negócio com galhos, mera produzidora de madeira, flores, frutos e folhagens que para muitos “sujam” o chão. Não é e jamais será empecilho. Só que, quanto mais me envolvo nessa luta literária para salvá-la, mais me deparo com a ignorância que mata aos poucos, judia, destrói.

Moro em Belém. As árvores que representam esta cidade são as mangueiras, que muitos cidadãos fazem questão de ver como pedra no sapato. Alienados à sombra protetora contra o calor quase diário de uns 30 graus, motoristas estacionam seus carros sob as copas e reclamam o corte quando uma manga cai sobre seus veículos aparelhados com ar condicionado.

Uma jornalista do jornal O Liberal, o mais famoso da cidade, me contou em tom de confissão na semana passada que já recebeu denúncias de quem aplica veneno nos troncos das mangueiras para matá-las logo. Isso sem falar na quantidade de lixo e entulho que belemenses teimam em deixar sobre a base destas árvores na falta de lixeiras apropriadas espalhadas por uma cidade amazônica onde seus moradores, de fato, não parecem se importar com imundície.

 

De corpo inteiro, a bela árvore das raízes sufocadas, foto: Karina Miotto

Saio de Belém do Pará, Amazônia, viajo para São Paulo, Mata Atlântica, e me deparo com o mesmo tipo de ignorância. Dizem que quem mora na capital é mais letrado, mais instruído. Que aqui existem todas as oportunidades, terra do conhecimento e da cultura ininterrupta. Pois em uma rua de um bairro tranquilo de classe média existe uma árvore enorme. Caminhando por ela, me deparo com uma copa daquelas de encher os olhos. Não sei qual é sua espécie. Admiro, intimamente agradeço a sombra que ela faz.

Olho para a sua base. Que concreto bonito. Foi bem escolhido, quem cimentou em volta da base inteira deve ter feito isso com esmero, sob o olhar supervisor da dona da escola, um berçário – que mau exemplo às crianças. Mal nascem e já podem começar a achar que árvore bonita, é árvore com base cimentada.

Toco a campainha. Sai de dentro um segurança. Peço para falar com a diretora. Em sua ausência, ele começa a me fazer uma série de perguntas – quem sou, onde moro, meu nome, o que quero falar, porque quero falar. “Não adianta falar com você, amigo, você não vai resolver o problema dessa árvore”. Ele insiste, eu explico. “A base está toda cimentada. Ela não está conseguindo se alimentar. Sem se alimentar, atrai cupim e com cupim pode ficar ocada. Se continuar assim, essa árvore um dia poderá cair”. Ele ri e bate o portão na minha cara.

 

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