80% dos antibióticos vendidos nos EUA são destinados a animais

Luana Caires
05.01.2011

Antibióticos são largamente usados na criação de gado, suínos e aves, foto: J. Bernardes

Uma pesquisa da Food and Drug Administration (FDA) revelou que 13 mil toneladas dos antibióticos produzidos no país são utilizadas em animais produtores de alimento (como carne e leite), enquanto apenas 3,3 mil toneladas são consumidas por humanos. Desde 1977, o FDA tem tentado limitar o uso dessas substâncias na produção animal, mas a iniciativa encontra oposição, principalmente entre os mais interessados: os produtores e a indústria farmacêutica.

Inicialmente, esses medicamentos eram usados para tratar doenças nos animais, mas, com o avanço do conhecimento e desenvolvimento de novos compostos, passaram a ser amplamente utilizados nas criações também como promotores de crescimento. Nesse caso, são adicionados à ração ou à água do gado, das aves e dos suínos. A prática é adotada internacionalmente. Na China, 91 mil das 210 mil toneladas dos antibióticos produzidos localmente, ou 43% do total, são destinada a rebanhos.

Administrados com moderação, esses remédios melhoram a produtividade e reduzem a mortalidade das criações. Porém, o uso indiscriminado é apontado como um dos responsáveis pela aumento da resistência das bactérias. Muitas das substâncias dadas aos bichos são igualmente usadas para tratar humanos —­ como a penicilina, a tetraciclina e sulfonamidas. Por isso, para nossa saúde, são graves as consequências do possível aumento da resistência de microorganismos causado pela prática. Embora a associação entre o uso de antibióticos na produção animal e bactérias a eles imunes não esteja firmemente estabelecida, vários estudos epidemiológicos sugerem que ela existe.

As indicações levaram a Organização Mundial de Saúde a declarar que o uso de antibióticos em rebanhos é um risco para a saúde humana. Na União Européia, o uso para promover o crescimento mais rápido foi banido depois que a avoparcina foi associada ao aparecimento, em animais domésticos, de Enterococci resistente. Na Austrália, após proibir a utilização de ciprofloxacina, cientistas registraram uma queda da resistência — para 2% — da bactéria Campylobacter jejuni ao medicamento. Ela é responsável por infecções intestinais humanas e o seu índice de resistência nos países em está liberada para o uso em rebanhos é de 20%, ou dez vezes maior.

Como exportador de carne, o Brasil respeita as legislações dos países com que comercia. Desde maio de 1998, proibiu no território nacional o uso de clortetraciclina, oxitetraciclina, penicilinas e sulfonaidas sistêmicas para alimentação animal. O uso da avoparcina também foi desautorizado por tempo indeterminado. Para a venda no mercado interno, há classes ainda legais de antibióticos estimuladores do crescimento, desde que tenham seu uso registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e modo de utilização, dosagem e período de carência sejam respeitados.



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Tudo o que você não queria saber sobre alface e tomate

Lúcia Nascimento
28.10.2010

Quando contaminados por agrotóxicos, alface e tomate são vilões da saúde, foto: An& e Terry Davies

Na salada mais básica não costuma faltar a dupla alface e tomate. Além de saborosos, o primeiro é rico em ferro e fibras, enquanto o vermelhinho dá show de antioxidantes, contendo grande concentração de licopeno, vitaminas A e B, postássio, ácido fólico e cálcio. É nativo das américas, onde já era cultivado por incas, maias e astecas, mas dá pinta de italiano: é um dos ingredientes básicos da chamada dieta mediterrânea. Tudo estaria ótimo, não fossem afetados pelo mau uso de agrotóxicos.

De acordo com o último levantamento da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ficaram com as posições pouco honrosas de 8º e 9º lugar entre os dez alimentos com maior chance de conter agrotóxicos banidos ou em excesso. Dois agrotóxicos perigosos foram encontrados no tomate: o endossulfan e o metamidofós, este último também identificado nas amostras de alface. Essas substâncias estão relacionadas ao aparecimento de câncer, distúrbios hormonais e problemas no aparelho reprodutor e  no desenvolvimento embriofetal. Por isso, elas já foram proibidas em vários países (veja aqui e aqui), o que levou a Anvisa a recomendar o seu banimento também no Brasil.

O Brasil é o principal destino de agrotóxicos proscritos no exterior. Segundo o cronograma do governo, as importações do endossulfan serão proibidas a partir de 31 de julho de 2011, mas o uso e a venda desse produto em território nacional só deve ser totalmente banida até julho de 2013. Já a proibição do metamidofós ainda está em avaliação.

O consumo de alimentos orgânicos é uma opção para evitar intoxicações por essas e outras substâncias. A única desvantagem é que eles são bem mais caros que os tradicionais. Em um supermercado da região oeste de São Paulo, um pé de alface convencional custa R$0,59 enquanto o orgânico sai por R$2,24 – 3,7 vezes mais caro. Para o tomate, os números são, respectivamente, R$1,89 e R$11,98 – ou uma diferença de 6,3 vezes. Entretanto, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), é preciso fazer cotação de preços, porque de acordo com um levantamento da organização os orgânicos são mais baratos em feiras do que em supermercados. A diferença, dependendo da região do país, pode chegar até 250%.

Quem não quiser gastar mais, deve tomar alguns cuidados. Uma dica é evitar comprar alimentos lisinhos e perfeitos, pois nem sempre o que é mais bonito é o mais saudável. Também não adianta deixá-los de molho em vinagre, limão ou bicarbonato de sódio. O ideal é diluir uma colher de sopa de água sanitária em um litro de água, deixá-los submersos por 5 minutos, enxaguando bem em seguida. Mas, antes de fazer isso, é preciso resfriar o fruto ou a verdura por duas horas pois, quando esses produtos se encontram na mesma temperatura da água, eles a absorvem, levando junto os agrotóxicos que se encontram em sua casca. (veja o vídeo abaixo).



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Agrotóxico: os 10 alimentos mais perigosos

Lúcia Nascimento
13.09.2010

Pimentão: no Brasil, vilão do agrotóxico - foto: Tamara Dunn

Com saudade daquele moranguinho com creme? Gosta de uma couve na sua feijoada? Pois, cuidado. Um estudo divulgado esse ano pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) colocou esses alimentos entre os mais perigosos para o consumo, por terem grande chance de sofrer contaminação excessiva ou uso errôneo de agrotóxicos. Aqui está, em ordem do mais perigoso para o menos, a lista dos top 10: pimentão (80,0%), uva (56,40%), pepino (54,80%), morango (50,80%), couve (44,20%), abacaxi (44,10%), mamão (38,80%), alface (38,40%), tomate (32,60%) e beterraba (32,00%).

Da ANVISA, sobre os resultados do relatório:

…chama a atenção a grande quantidade de amostras de pepino e pimentão contaminadas com endossulfan, de cebola e cenoura contaminados com acefato e pimentão, tomate, alface e cebola contaminados com metamidofós. Além de serem proibidas em vários países do mundo, essas três substâncias já começaram a ser reavaliadas pela Anvisa e tiveram indicação de banimento do Brasil. De acordo com Dirceu Barbano, diretor da Anvisa, “são ingredientes ativos com elevado grau de toxicidade aguda comprovada e que causam problemas neurológicos, reprodutivos, de desregulação hormonal e até câncer”. (grifo nosso)

A tabela a seguir mostra os resultados da pesquisa, que analisou amostras de 20 tipos de vegetais. Em 15 delas, encontrou agrotóxicos usados de forma irregular. A 1ª coluna mostra o número de amostras analisadas por alimento. Em seguida, na coluna ‘Não autorizados para cultura’, aparece o número absoluto e percentual das amostras onde aparece o uso irregular de agrotóxicos. No mesmo formato, a 3ª coluna ‘Acima do limite máximo de resíduo’ destaca as amostras que continham quantidades de agrotóxicos permitidos, mas além dos limites seguros. A 4ª coluna mostra a intersecção das amostras que se encaixam nas duas categorias. E, finalmente, a última coluna, mostra a chance de contaminação do alimento de acordo com a soma das modalidades anteriores. Os 5 alimentos que têm chance de contaminação abaixo de 10% estão marcados em verde água (de novo, o colorido é nosso). É um panorama nada animador, pois essa lista contém boa parte dos vegetais que, até mesmo por razões de saúde, somos incentivados a consumir.

A alternativa eficaz para evitar pesticidas é consumir orgânicos. Mas nem sempre isso é possível – já que esses vegetais costumam ser mais caros e não são encontrados em quantidade suficiente em todas as cidades. Por isso, uma solução intermediária é tentar eliminar os resíduos de agrotóxicos, quando possível. A nutricionista Cláudia Cardim, coordenadora do curso de nutrição da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro, dá as dicas para isso.

  • No caso de alimentos de origem animal (que podem ter sido contaminados pelos agrotóxicos pela água ou pela comida), retire a gordura aparente, pois algumas dessas substâncias são armazenadas no tecido gorduroso
  • Lave frutas e verduras em água corrente por pelo menos um minuto, esfregando com uma esponja ou escova
  • Tire as folhas externas das verduras e descasque as frutas, pois essas partes concentram mais agrotóxico
  • Diversifique os vegetais consumidos no dia a dia, pois isso reduz a ingestão de quantidades maiores de um mesmo agrotóxico
  • Como alguns pesticidas podem ser utilizados na fase final da maturação do alimento, reduza o risco comprando frutas e legumes mais verdes, e espere alguns dias antes de consumi-los.


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