Reduzindo o espaço dos carros, de NY para o Rio de Janeiro

Fabíola Ortiz
24.03.2011

Avenida Rio Branco, antiga Av. Central, 1930. Foto: Peter von Fuss

 

(continuação de Times Square, Nova York: adeus carros, alô pedestres)

 

A exemplo do que foi feito em Nova York, o centro do Rio de Janeiro poderia implantar um sistema parecido. “Me parece que o exemplo da Times Square poderia ser aplicado para a Avenida Rio Branco para aumentar o espaço do pedestre”, diz José Moulin Netto, vicepresidente do  Green Building Council Brasil. Em Nova York, um estudo mostrou que o terço de pessoas que estão nos carros e ônibus ocupam dois terços da via e o que sobra de calçada está sempre lotado. É capaz de chegarmos à mesma conclusão aqui no Rio, especula Moulin. “É parecido com o que a gente experimenta na Av. Rio Branco. Sou propenso a aceitar o seu fechamento total ou parcial”.

No centro do Rio, algumas ruas históricas próximas à Praça XV e ruas estreitas transversais à Rio Branco como a Rua do Ouvidor, já se tornaram ruas exclusivas de pedestre. Mas o desafio será bloquear a Rio Branco, antiga Av. Central e marca da reforma urbana empreendida no início do século XX pelo então prefeito Pereira Passos. A avenida continua sendo uma das principais artérias do Centro, ligando a Praça Mauá, no porto, à Cinelândia. Nos seus 1.800 metros de extensão por 33 de largura circulam quase dois mil ônibus todos os dias

De acordo com o projeto Rio Verde, da prefeitura, o plano é fechar a Avenida Rio Branco e adjacências para carros e ônibus e transformar esse conjunto num enorme parque urbanístico com dois milhões de metros quadrados, compreendido entre o quadrilátero das avenidas Rio Branco — desde a Presidente Vargas –, Av. Passos, Beira Mar, Presidente Antônio Carlos, República do Paraguai e Rua 1º de Março. Para testar o plano, já foi feito uma experiência no dia 26 de junho de 2010, um sábado.

Dados da prefeitura indicam que cerca de 36% dos gases tóxicos que poluem a Rio Branco provém de ônibus e carros. O fechamento melhoraria a qualidade do ar e transformaria a via num enorme calçadão de pedestres, com chafarizes, quiosques, arborização e mobiliário urbano especial. As linhas de ônibus seriam remanejadas. Haveria uma redução de 70% da frota e, em complemento, seria adotado o transporte com veículos elétricos de grande porte.

Para reduzir o fluxo diário de carros no centro, uma das soluções possíveis é a adoção do pedágio urbano: cobrança de tarifa para quem quiser usar um veículo privado na região. “Eu pessoalmente acho muito boa a ideia de pedágio urbano. A gente tem que, de alguma maneira, penalizar o transporte individual em automóvel e promover e valorizar o transporte coletivo”, disse Moulin.

Mas não é fácil aprovar tal medida. Até mesmo em São Paulo, a maior metrópole da América Latina, onde a necessidade de melhorar a mobilidade de 6,5 milhões de automóveis é urgente, criar um imposto sobre a circulação de carros enfrenta “dificuldades homéricas”.

 



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8 respostas para “Reduzindo o espaço dos carros, de NY para o Rio de Janeiro”

  1. […] Continua em Reduzindo o espaço dos carros, de NY para o Rio de Janeiro […]

  2. Willian Cruz disse:

    Em São Paulo, deveriam fechar a Av. Paulista. Mas não fecham nem as ruas Sta. Ifigênia e 25 de Março, que têm tanta gente circulando nas calçadas estreitas que elas são obrigadas a invadir a rua… Se ao menos proibissem estacionar, aproveitando para ampliar a calçada, já ajudaria.

  3. Cezar disse:

    Deveriam fazer ônibus com espaço para acomodar bicicletas para o deslocamento de longas distâncias. Ao chegar nas bordas dos centros das cidades, os ônibus entrariam em um terminal e as pessoas poderiam pegar suas bicicletas e seguir rapidamente até seus locais de trabalho. Ou adotar bicicletas de aluguel, disponíveis nas regiões onde seria feito o desembarque das pessoas. Ou seja, menos veículos movidos a motor e mais veículos movidos a "arroz com feijão".

  4. joao gualberto disse:

    No Brasil, o urbanismo muitas vezes não passa de uma pintura do meio fio e colocação de novas placas. Sem intervenções de porte, nas grandes cidades, não se melhora condições de vida. Se um prefeito pretender proibir o estacionamento de veículos em determinado trecho de avenida para melhorar o tráfego e meia dúzia de comerciantes se mostrarem contra – com eleições a cada dois anos – nada é feito. Os governantes e gestores públicos, de regra, estão sempre viajando ao exterior à custa do dinheiro público mas quase nada de bom que vejam lá fora nos trazem para adaptarmos aqui. Os mecanismos legais de intervenção urbanística estão estabelecidos, basta decisão política e disposição de convencer a sociedade afetada com bons projetos.

  5. Devido a grande corrupção que existe no senado e em toda politica Brasileira, será dificil alguma coisa com todo tamanho dar certo… primeiro temos que acabar com a corrupção depois começar a manusear as tecnologias aqui noBrasil…

  6. Henrique Torres disse:

    O projeto Rio Verde, um caso típico de cópia mal feita de um projeto bem-sucedido, teria um impacto extremamente negativo. Primeiro: a Avenida RIo Branco é um eixo prioritário para os transportes públicos. Simplesmente remanejar as linhas de ônibus (para onde? Resposta: para vias muito mais estreitas e inapropriadas para a passagem de ônibus, algumas inclusive atualmente ruas de pedestres (!), como a Uruguaiana) seria tirar o sofá da sala e levá-lo para um lugar muito pior. Poluição? Por que ela dimunuiria?

    Segundo: os arquitetos da prefeitura não foram capazes de perceber o que o arquiteto David Sim, do escritório Jan Gehl, sacou em dois dias depois de chegar ao Rio: diferentemente da Times Square – que tem teatros, restaurantes, etc. – a Avenida Rio Branco é ocupada em sua grande parte por bancos. Depois das cinco horas, a sua utilização é quase que exclusivamente feita por pessoas que estão circulando ali, a maioria para pegar ônibus – e elas seriam expulsas dali, rumo a ruazinhas desconfortáveis para onde seriam relegados os ônibus. Colocar mesas na rua para ver o quê? Vitrines de bancos? Não existe nada menos charmoso do que isso. Quanto às atuais "ruas de pedestres", como Ouvidor, citada por você, é extremamente desagradável andar por elas, pois você tem de competir com os carros que circulam por ali (ruas de pedestres??). E a prefeitura ainda permite a existência de estacionamentos (!) em ruas como a da Quitanda – e ainda vem me falar de fechar a Rio Branco?

    Qual seria a melhor solução para o Centro? Restringir o acesso de automóveis (através do pedágio urbano, como foi citado, e de restrições ao estacionamento); deixar a Rio Branco para o uso exclusivo de transportes públicos de qualidade (poderiam ser ônibus articulados ou bondes) trafegando em mão dupla, como era originalmente, e permitindo, inclusive, a ligação da Zona Sul com a Região Portuária, hoje muito ruim; reduzir ou eliminar mesmo o tráfego da Rua Primeiro de Março, esta sim uma via adequada, por seu uso atual (CCBB, Centro Cultural dos Correios, Rua do Mercado), a um projeto com o da Times Square.

    • Olá Henrique, seus argumentos são incisivos e convincentes. Pessoalmente, acredito que com o barateamento de tecnologias como o celular e o GPS o pedágio urbano virá em algum momento e acabará abarcando todas as vias importantes da cidade. Mas serão anos antes disso, pois a resistência das próprias pessoas é muito grande.

  7. […] de Transportes da cidade (leia o que saiu a respeito no ((o)) eco Cidades – parte 1 e parte 2). O secretário do Verde e Meio Ambiente Eduardo Jorge e o prefeito de Portland Sam Adams em frente […]

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