Porque Fukushima despreocupou e me fez adorar energia nuclear

Guardian Environment Network
29.03.2011

Linhas de transmissão sainda de usina nuclear em Suffolk, UK - foto: Rodney Burton

 

por George Monbiot*

 

Você não se surpreenderá em saber que os acontecimentos no Japão mudaram meu ponto de vista sobre energia nuclear. Vou surpreendê-lo pela direção em que mudei de opinião. Em consequência do desastre de Fukushima deixei de ser neutro em relação à energia nuclear. Agora, eu apoio essa tecnologia.

Uma velha usina, de quinta categoria, com mecanismos de segurança inadequados foi atingida por um extraordinário terremoto seguido de vasto tsunami. O fornecimento de eletricidade falhou e derrubou o sistema de refrigeração. Os reatores começaram a explodir e derreter. O desastre expôs a situação típica de projeto ruim e economias porcas na sua operação. Mesmo assim, pelo menos até agora, ninguém ainda recebeu uma dose letal de radiação.

Alguns verdes exageraram absurdamente os perigos da poluição radioativa. Para uma avaliação mais clara, olhe o gráfico publicado pelo site xkcd.com. Ele mostra que no desastre de Three Mile Island a dose média que atingiu as pessoas vivendo em um perímetro de 16 km do vazamento foi 1/625 avos do máximo anual permitido nos EUA para trabalhadores que lidam com radiação. Esta dose, por sua vez, é metade da menor dose claramente ligada a um aumento de risco de câncer. E, finalmente, essa última é igual a 1/80 avos de uma dose fatal. Não estou aqui propondo que sejamos complacentes. Quero propor que tenhamos perspectiva.

Se outras formas de produção de energia não causassem danos, esses impactos teriam outro peso. Mas energia é como medicina: se não houver efeitos colaterais, a maior chance é que o remédio não funcione.

Como a maioria dos verdes, eu apoio a expansão de fontes renováveis. Também entendo as reclamações dos seus oponentes. Não são apenas as turbinas eólicas terrestres que incomodam as pessoas, elas também demandam mais infraestrutura de distribuição de energia, como cabos e postes. Para manter as luzes acesas, à medida que a proporção de energia elétrica renovável se expande, a necessidade de estocá-la também cresce. Isso significa mais reservatórios nas montanhas, os quais não são nada populares.

Os impactos e custos das renováveis aumentam com a sua fatia na geração total de energia, pois a necessidade de armazenamento e redundância aumenta. É bem capaz que seja o caso (não vi ainda surgir nenhum estudo comparativo a respeito) de que até um certo ponto – 50% ou 70%, talvez? – as renováveis tenham um impacto menor sobre a geração de carbono do que a nuclear. E, a partir daí, a nuclear tenha um impacto menor do que as renováveis.

Como outros, defendo o uso das renováveis para substituir a eletricidade gerada através de combustíveis fósseis e para suprir as necessidades de expansão do fornecimento, substituindo o óleo usado nos transportes e o gás utilizado para aquecimento no inverno. Mas devemos também exigir que as renováveis substituam a capacidade de geração nuclear instalada? Quanto mais esperarmos das renováveis, maior será o seu impacto sobre a paisagem e mais duro será convencer o público a aceitá-las.

Mas expandir a infraestrutura de distribuição para conectar as pessoas e a indústria a fontes abundantes de energia natural foi uma alternativa rejeitada pelos verdes que reagiram ao meu post recente, no qual argumento que a energia nuclear é mais segura do que o carvão. O que eles disseram querer é algo bem distinto: devíamos diminuir o consumo de energia e produzi-la localmente. Alguns chegaram a argumentar que devemos abdicar da infraestrutura de distribuição de eletricidade. Essa visão bucólica é adorável, até você se dar conta dos detalhes.

Em latitudes tão ao norte, como a nossa, a maior parte da tecnologia de geração em pequena escala é inviável. Gerar energia solar no Reino Unido envolve um fantástico desperdício de recursos escassos. É de uma ineficiência total, além de ser difícil de conciliar com os horários de pico de consumo. Energia eólica em áreas densamente habitadas dificilmente é possível. Parte é consequência de termos construído nossas cidades em lugares protegidos e, parte, devido a interferência que os prédios causam no fluxo de ar. Micro hidroelétricas podem funcionar em uma fazenda no País de Gales, mas não em Birmingham.

Como abasteceríamos nossa indústria têxtil, fornos de tijolos e ferrovias elétricas? Isso para não falar de processos industriais avançados. No momento em que você considera a demanda total da economia, acaba o seu amor pela produção local de energia. Uma boa infraestrutura de distribuição nacional (ou, melhor ainda, internacional) é o pré-requisito essencial para o fornecimento de energia renovável.

Existem verdes que vão ainda mais longe: porque desperdiçar recursos renováveis usando-os para produzir eletricidade? Por que não podemos usá-los diretamente para gerar energia? Para responder essa questão, dê uma olhada no funcionamento da Inglaterra antes da Revolução Industrial.

Represas e açudes nos rios britânicos usados para mover moinhos eram um exemplo de tecnologia em pequena escala, renovável, pitoresca e devastadora. Bloquear rios e assorear suas áreas de desova ajudou a acabar com as gigantescas migrações de peixes que, um dia, foram um dos nossos maiores espetáculo naturais e fontes de alimentação – extinguindo espécies como o esturjão, a enguia de água doce e o sável, como também o salmão e a maior parte das trutas marítimas.

O uso de tração animal estava diretamente ligado à fome. Quanto mais terra era separada para alimentar animais de tração para a indústria e o transporte, menos havia disponível para alimentar humanos. No século 17, essa tendência foi o equivalente à crise atual provocada pelos biocombustíveis. O mesmo se aplica ao combustível usado para aquecimento. E. A. Wrigley destaca no seu livro Energy and the English Industrial Revolution (Energia e a revolução industrial inglesa),  que os 11 milhões de toneladas de carvão extraídos na Inglaterra em 1800, caso fossem substituídos por madeira, exigiriam 11 milhões de acres ocupados por florestas, o equivalente a um terço do nosso território.

Antes do carvão se tornar amplamente disponível, a madeira não era usada apenas para aquecer residências, mas também para processos industriais: se a metade da superfície da Inglaterra fosse coberta de florestas, mostra Wrigley, poderíamos produzir 1,25 milhões de toneladas de ferro por ano (uma fração do consumo corrente) e nada além disso. Naquela época, mesmo com uma população muito menor do que a atual, bens manufaturados e a economia baseada em recursos advindos da terra eram reservadas à elite. Energia radicalmente verde – decentralizada e baseada em produtos do solo – é muito mais danosa à humanidade do que um acidente atômico.

Mas a fonte de energia da qual a maior parte das economias dependerá, caso fechem suas usinas atômicas, não é madeira, água, vento ou sol, mas sim combustível fóssil. Sob qualquer medida de impacto (mudança climática, danos de mineração, poluição local, acidentes de trabalho/mortes na indústria e até descargas radioativas), carvão é 100 vezes pior do que energia nuclear. E graças à expansão do gás extraído de xisto, os impactos ambientais do gás estão aumentando rapidamente.

Sim, continuo detestando os mentirosos que comandam a indústria nuclear. Sim, eu preferiria ver o setor inteiro ser fechado, se houvessem alternativas que não causassem danos. Mas não existem soluções ideais. Todo tecnologia energética traz o seu custo; e deixar de usá-las também tem custo. A energia atômica acabou de passar por um dos mais duros testes possíveis, e o impacto sobre as pessoas e o planeta foi pequeno. A crise de Fukushima me converteu à causa nuclear.

 

* ((o))eco publica esse artigo como membro da Guardian Environment Network. Ele saiu inicialmente no Guardian, em 21/3/2011.

 

Leia também:

Por um futuro verde e seguro, sem energia nuclear

Japão: agora o risco nuclear

 



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16 respostas para “Porque Fukushima despreocupou e me fez adorar energia nuclear”

  1. Lia Caldas disse:

    Que absurdo !

  2. ANONIMO disse:

    QUE ABSURDO! (2) sujeitinho idiota!!!! unfolow now!

  3. Só para pontuar o debate. ((o))ecocidades é um site de jornalismo ambiental e não de ativismo. Existe um debate sério a respeito dos custos e benefícios do uso da energia nuclear, defendida também por ambientalistas, como é o caso do Monbiot. Nesses casos, sempre procuraremos publicar todas as opiniões relevantes a troca de ideias. E cada um que chegue as suas próprias conclusões.

  4. Adonai disse:

    quando lembro que 19 gramas de cloreto de césio 137 resultaram em 6 mil toneladas de resíduos contaminados no acidente de Goiânia (1987), me convenço que toda essa conversa em defesa da energia nuclear é furada! não precisamos (ou não deveríamos precisar) de mais energia cara e perigosa: já temos bastante! Precisamos é de um modelo de desenvolvimento pautado na economia de energia e no princípio da precaução.

  5. Adonai disse:

    *deixo claro: usei o exemplo de Goiânia somente para ilustrar o potencial de geração de resíduos dos elementos radioativos. Sabemos que os fatos e usos da radiação, nos dois casos, foram completamente diferentes.

  6. dora disse:

    … mas o Governo Brasileiro tem a bandeirola na mão e n vai voltar a trás… agora é a lavagem cerebral !
    Um País com imensos recursos, é uma pena. Se as fugas fossem consideradas crime contra a humanidade, que É !… Não se deixem levar na conversa pq foi um inlges q escreveu o artigo… Tá tudo comprado !

  7. […] – Porque Fukushima despreocupou e me fez adorar energia nuclear […]

  8. Emmanuel disse:

    Argumentação sólida, texto muito bem escrito. É o direito dele pensar assim, e defendeu seu ponto de vista muito bem.

  9. Leda disse:

    Eu gostaria apenas de expressar que sou contra as Usinas de Angra, que há necessidade urgente de planejar a desativação da mesma. E esquecer o que já falam por aí, na instalação de usina nuclear no nordeste, próximo ao riao São Francisco. Quem sabe precisaremos de um movimento nacional para nos posicionarmos contra?

  10. Carlos EARP disse:

    Expressar uma opinião é um direito.
    Chocante é usar o termo "adorar".
    Como é possível adorar uma energia tão perigosa
    e poluente?
    Este cara é doido…

    • Olá Carlos, a tradução do título em inglês é minha. No original está "Why Fukushima made me stop worrying and love nuclear power". Procurei ser o mais fiel possível dentro do espaço tecnicamente disponível no site. A Folha de São Paulo publicou uma versão resumida do artigo com o título "Porque me tornei partidário da energia nuclear".

      Como editor de ((o))ecocidades escolhi publicar esse texto pelo prestígio do autor e para dar oportunidade ao nosso leitor de conhecer as diferentes visões sobre o assunto. Também publicamos ótimos artigos do Ricardo Baitelo (Greenpeace BR) contra a energia nuclear e outro, do Sérgio Abranches (Ecopolítica) falando dos riscos.

      Acho que o Monbiot usou um recurso discutível de polemista na hora de escolher o título. O artigo é mais balanceado do que o título. Ele seguiu o caminho duvidoso de querer chamar a atenção exagerando logo no início.

  11. Antonio Lisboa disse:

    Como foi um europeu branco que disse todo mundo lê, reflete e respeita.

    Se fosse os morenos Evo ou Chávez dizendo isso… já os estaríamos xingando…

    Brasil… eterna colônia!

    PS.: a propósito, Hugo Chávez está revendo o projeto nuclear na Venezuela.

  12. Eduardo disse:

    Texto muito bom. Observem que o autor faz questão de enfatizar em várias passagens que também é a favor do desenvolvimento de energias renováveis, mas, infelizmente, não se pode contar com elas em diversas situações. Diversificar a matriz energética me parece o caminho mais adequado. Precisaremos inevitavelmente de todas elas. Energia nuclear é perigosa? É. Tem impactos negativos? Tem, assim como todas as demais fontes de energia.

  13. Rogério Martins disse:

    Não há dúvida que a energia nuclear é mais limpa que as demais, pessoalmente não tenho dúvidas disso. Assim como as hidrelétricas, com um bom estudo de impacto ambiental, talvez fosse tão limpa ou chegasse a ser muito próximo da nuclear. O problema é que em tudo que o ser humano põem a mão fica dependente de interesses financeiros. A energia nuclear é muito limpa para quem precisa e depende dela, e deveria ser obrigação dos japoneses evitar esse tipo de catástro. Mas lá, assim como aqui, os interesses financeiros ficaram a frente da sociedade. A vantagem inquestionável é que lá alguém vai ser punido ou se matará de vergonha. Já aqui…

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