Destruição no Vale do Cuiabá ocorreu dentro de APPs

Raul Bueno
14.01.2011

A seta indica a faixa de construções dentro da APP. Clique e explore o mapa - fonte: Google Earth

Um trecho de 3 quilômetros do vale foi devastado pela transbordamento do rio Cuiabá. A maior parte das vítimas fatais no município de Petropólis estavam lá. A contagem até o fechamento desse post é de 41 mortos e 22 desaparecidos.

A imagem acima, extraída do Google Earth e editada em Autocad, mostra que, na área mais afetada, existiam inúmeras construções dentro da APP (Área de Proteção Permanente), onde o código florestal brasileiro, proíbe edificações. No caso de rios com até 10 metros de largura, medidos no seu nível mais alto, a APP exige um afastamento de 30 metros de cada margem do rio.

A linha azul assinala o curso do rio Cuiabá. E as duas linhas laranja delimitam os limites aproximados da APP. Veja a quantidade de casas de maneira indubitável dentro desses limites. A imagem fala por si só.

A pousada Tambo los Incas — que foi submersa e destruída pelas águas — ficava pouco abaixo desse ponto. Medindo pelo Google Earth, a pousada estava a 42 metros do rio, portanto possivelmente fora da APP, caso a largura do rio na sua cheia fosse (normalmente) pouco diferente da média. A margem de erro dessa medição é de 1 a 2 metros.

Tambo los Incas: poucos metros fora da APP. Ainda assim, devastada. Clique e explore o mapa.

No caso do Vale do Cuiabá, estreito e íngreme, um estudo mais apurado, feito por um hidrólogo, provavelmente demarcaria uma faixa bem maior que a distância mínima exigida pelo código florestal.O código está em vigor desde 1965. Algumas propriedades são anteriores a ele. O resto é crime.

 

* Raul Bueno é arquiteto urbanista. Ele doou o valor pago por esse artigo ao fundo de ajuda às vítimas.

 

Obs: esse texto foi editado para uma pequena correção no dia 18 de janeiro.



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27 respostas para “Destruição no Vale do Cuiabá ocorreu dentro de APPs”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Sergio Abranches, O Eco Meio Ambiente, Natalie Unterstell and others. Natalie Unterstell said: RT @Oecocidades: Destruição e mortes no Vale do Cuiabá, Itaipava, ocorreu dentro de APPs http://bit.ly/gwF8vw […]

  2. Adriana Sansão disse:

    Nada como uma informação útil, Raul.
    Parabéns pela investigação!

  3. […] Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. Ou, com clareza maior ainda, nestes estragos que precederam a enxurrada no Vale do Cuiabá. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais […]

  4. @AlexandreMMP disse:

    E ainda querem alterar o Código Florestal reduzindo as APP's?

  5. regina a cãmara disse:

    Lendo isto fico indignada com a ganância das pessoas. Infelizmente podemos dizer que cavaram a própria desgraça

    • antonio disse:

      não é ganância e sim procurar uma moradia já que o governo não faz nada e não se trata de cavar a própria sepultura, ninguém procura . pra comentar falando besteira é preferível ficar calada.

      antonio.

  6. Orlando Villas-Boas disse:

    A APP deve ser marcada a partir do nível máximo da cheia do rio em questão. Ela seria ainda mais larga do que o mostrado na imagem. Aqui se faz, aqui se paga.

  7. Raul Ravanelli Neto disse:

    bagui é doidu

  8. Tom Lima disse:

    O maior crime é cobrança de IPTU nessa região!

  9. Vânia Garcia disse:

    As construções vão surgindo sem orientação nenhuma das autoridades competentes. Com certeza a maioria dos maoradores dessa localidade não conhecem o Código Florestal e muito menos os riscos que correm ao morar nessas áreas de risco. Portanto, o poder público é sim o verdadeiro culpado por essa desgraça.

    • Daiana disse:

      Desculpa Vânia sou ex- moradora e ao contrário do que vc disse (o que não entendi porque) os moradores conhecem sim o Código Florestal e 90% não morava em área de risco… tanto é que a " alta sociedade do Rio" estava hospeda lá no dia da trágedia e vc pode ter certeza que não era em área de risco…Não fale como se lá vivessem pessoas miseráveis e ignorantes…

    • MARLI disse:

      OLHA SÓ AS CASA NAÕ ERA CONTRUIDA EM AREA DE RISCO FOI UM FENONIMOA DA NATUREZA EU FUI NASCIDA E CRIADA NO VALE DO CUIABA TENHO 48 ANOS E NUNCA TINHA ACONTECIDO UMA TRAGEDIA IQUAL A ESSA E MUITO FACIO AS PESSOAS JULGA SE SENTI NA PELE O QUE PASSAMOS NIMQUEM MORAVA EM AREA DE RISCO .
      e SIM PASSOU A SE DEPOIS DA TRAGEDIA

  10. Rodolpho Schmidt disse:

    O Local onde se encontra a referida pousada, aparentemente é uma APP sim, trata-se de uma área de várzea. Neste caso a APP não se inicia no centro do leito do curso d’água e sim na sua cota de maior vazão sazonal. Este lugar com certeza era bem úmido, já foi drenado e sofria encharcamentos anual ou bi anualmente. Estes pontos são comumente ocupados na Zona rural por se tratarem sempre de áreas planas nas margens dos rios. Se fosse à Amazônia as pessoas construiriam, neste local, casas sobre palafitas ou casas flutuantes. Já aqui no sudeste o período de retorno das cheias não é anual, é bem mais longo, dá tempo das pessoas esquecerem que estão ocupando uma parte do rio. Mesmo que temporária, uma parte do rio.

    • raulbueno disse:

      Caro Rodolpho, muito obrigado pela contribuição.
      Concordo com sua colocação. O poder público deveria providenciar um mapeamento de todas essas áreas no estado do Rio e publicá-lo. Se não conseguimos fiscalizar e remover todas a população que vive ás margens dos rios, ao menos elas deveriam conhecer os riscos.

  11. raulbueno disse:

    Seria realmente muito interessante conhecer esse juiz. As vezes, a escassez de habitações leva as pessoas, erroneamente, a arbitrar em favor do imediatismo, e assim acabar correndo um risco, que as vezes resulta em tragédia.

    Será que existem outras liminares, em outros locais como a mencionada?

  12. ciro disse:

    Caro Raul, parabéns pelas informações precisa.
    Sou da área de Direito e estou fazendo a minha disertação de mestrado sobre as APP's gostaria de ter acesso ao seu trabalho na íntegra e trocar informações. Uma tragédia como essa não pode passar em branco. Temos que produzir comhecimento cient;ifico de qualidade para que catástrofes dessa envergadura, ainda que inevit.aveis, não deixe tantas vítimas fatais. É o compromisso da academia com a sociedade.
    SANTOSCIRO@BOL.COM.BR
    Ciro augustodos santos

    • raulbueno disse:

      Caro Ciro,

      Planejamento urbano e demarcação de áreas de risco são trabalhos para equipes multidisciplinares. Ao ocupar novas áreas, próximas de rios e enconstas, deve-se consultar engenheiros ambientais, geográfos e outros profissionais da área. Este é o procedimento comum para qualquer projeto de pequeno a grande porte. Creio que é hora do estado demarcar e publicar esse material.

      Planejamento e prevenção é muito barato. Remediar tragédias é infinitamente custoso.

  13. Luciano Soares disse:

    Tem que mandar para o seu Aldo Rabelo e sua turma!

  14. Lorena disse:

    Técnicos e fiscalização????
    Em uma prefeitura que não quer contrtatar pessoal gabaritado. Qua não faz concurso há 20 anos, que os poucos ficais (4 ou 5 para a cidade toda) penam para cumprir tudo que lhe é encaminhado.

  15. Luiz disse:

    Então devemos verificar o mesmo em toda a extensão do rio Santo Antônio, e veremos mais de 1000 famílias nas APP's. E faremos o mesmo em todas as bacias de todos os afluentes do rio Piabanha. Acharemos mais umas 5000 famílias.
    Onde conseguiremos local para essa população toda.
    De um lado o rio, do outro a Mata Atlântica. Onde vamos abrigar toda essa população???
    Não podemos esquecer o que aconteceu em 2008. A chuva pegou o Vale da Boa Esperança e não o Vale do Cuiabá. E as consequências foram as mesmas, destruição e invasão de água nas casas.
    Se o Tambo Los Incas está fora da APP e foi totalmente destruido, entre outras moradias fora da APP, então o que fazemos? Retiramos todos do Vale do Cuiabá. Proibimos de cosntruir em cotas abaixo de 10 metros da cota do rio?
    Como podemos ajudar essa gente?

  16. Daniel Silva disse:

    A Legislação ambiental poderia minimizar, mas não resolveria o problema do Vale do Cuiabá. Minha família por exemplo tem terras na região desde 1822 na Fazenda Santo Antônio (que já não possui este nome) e não há nenhum registro de evento semelhante a esse na região nesses quase 200 anos, e muitas outras casas foram contruidas antes de 1965. Desrespeitando ou não as leis ambientais o estrago causado pelo rio Santo Antônio teria sido o mesmo, a legislação dita o afastamento de 15m do rio só que no dia 12/1/2011 em algumas áreas o leito do Santo Antônio de aproximadamente 5m passou pra mais de 500m. Nesse casos a legislação não teria ajudado.
    É difícil dizer isso como biólogo e tendo perdido 5 pessoas da família e mais dezenas de amigos, mas neste evento não havia como prevenir o estrago. O Rio vareu tudo no ponto final do Vale od Cuiabá em aproximadamente 5 min, pouco tempo para achar uma rota de fuga.

  17. Alex Borges disse:

    Eu como real vitima dessa tragedia. as vezes tenho que achar graça disso, pois certas pessoas que faziam usos das pousadas da região agora todas dizem "as casas estavam irregulares; tinham menos de 30 metros do leito do rio; as casas tinha invadido area ambiental,etc"sou bisneto da srª Elvira Maria Cabral a qual deu ate o nome da rua no ponto final do bairro Cuiabá, que já na epoca dela que faleceu acho que com 104 anos as terras ja eram de nossa familia por meios de herança
    nunca tinhamos ouvido nada ; nem nunca parecido com que houve.agradeço a todos se solidariedaram com nossas perdas e aqueles que falam justamente o contrario; reavaliem,ou visitem o lugar em vez de falar bobeira.Alex Borges

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