De volta para o futuro: Nova York em 2030 sem carros

Fabíola Ortiz
25.02.2011

O urbanista nova-iorquino Michael Sorkin

Como será Nova York em 2030? Será possível o corte quase total de veículos motorizados, ‘pedestrealizá-la’ e cobrir o espaço público com áreas verdes? Michael Sorkin, urbanista local, acredita que sim e tenta provar com um projeto para transformar a área conhecida como Lower Manhattan. Seu trabalho foi uma resposta ao desafio lançado pelo Instituto de Políticas de Transportes e Desenvolvimento (Institute for Transportation and Development Policy – ITDP) a 10 arquitetos de renome. O objetivo: criar cidades sem engarrafamentos, com formas não poluentes de transporte e muita qualidade de vida. O dele e os demais resultados estão na exposição multimídia As Cidades Somos Nós – Desenhando a mobilidade do futuro, aberta até o dia 13 de março no Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro, e exibida simultaneamente na Cidade do México.

Residência de uma população acima de oito milhões de pessoas, Nova York cresceu a partir de suas linhas de metrô – a primeira linha foi instalada em 1904 — e trens de subúrbio considerados parte do maior sistema de transporte rápido do mundo. Com o passar do tempo, curvou-se aos automóveis que hoje entopem suas artérias e roubam tempo das pessoas no trajeto casa-trabalho.

Ao longo das décadas, também mudaram a natureza dos trabalhadores e das classes sociais em Manhattan. A ponte do Brooklyn é um exemplo da transformação. Inaugurada em 1883, servia ao transporte de massa e, hoje, seu acesso é exclusivo a carros particulares. A parte da ponte destinada aos 4 mil pedestres e 2.600 ciclistas que a cruzam diariamente está superlotada.

Ponte do Brooklyn, 1978. foto: Jack Boucher

“As pessoas são mais importantes do que os carros”, afirmou Sorkin em palestra proferida, ontem, no Centro dos Correios. O que propomos essencialmente é ‘pedestrializar’ a região de Lower Manhattan. “Queremos livrar-nos dos carros”, levar cerca de quatro horas por dia só na ida e volta ao trabalho é uma “forma irracional de desenhar as cidades”, completou.

“Lower Manhattan é uma área interessante, pois se tornou nos últimos 20 anos um bairro residencial com grande potencial de crescimento. Por muitos tempo foi predominantemente comercial. As ruas são estreitas, o estacionamento é difícil e incrivelmente caro”. Apesar de ser um local bonito em si, diz Sorkin, a área da ponte do Brooklyn é ainda degradada e agredida por um emaranhado de rampas, pistas e estacionamentos a céu aberto. Esses obstáculos impedem o fluxo de pessoas de localidades próximas, como, por exemplo, quem vem de Chinatown.

Novo projeto do Sorkin Studio para a região de Lower Manhattan

Em 2030, ao contrário de hoje, Sorkin visualiza Lower Manhattan como uma “zona eco”. Quase todas as ruas passarão a ser exclusivas para pedestres ou compartilhadas com veículos lentos. Para torna-las mais convidativas aos pedestres, serão arborizadas e pavimentadas com paralelepípedos.

Haverá taxis-bicicleta e sistemas de bicicletas compartilhadas. Os transportes de massa serão integrados, incluindo os corredores exclusivos para ônibus (BRT ou Bus Rapid Transit, na sigla em inglês), metrô e linhas de bonde. A via expressa Franklin Delano Roosevelt, que corta o local e segue em direção ao sul da cidade, será substituída por um boulevard com ciclovias e faixas de BRT. Por fim, espera-se que a implantação de um pedágio urbano na ponte do Brooklyn acabe com os engarrafamentos de carros e caminhões de carga, que, mesmo pagando, só terão permissão para circular se usarem tecnologia ultra-limpa.

Os desafios da cidade de Nova York neste século 21 não são poucos, admite Sorkin. “Há este de tornar a cidade mais sustentável, mais sensível no quesito ambiental, mas também existem demandas sociais. Nova York está muito cara. O custo de vida assusta cada vez mais a classe média e baixa. A economia local precisa mudar para incluir todos os tipos de pessoas”. O complemento da revolução que propõe para a paisagem pública e para a mobilidade é tornar a cidade democrática.



Tags: , ,

7 respostas para “De volta para o futuro: Nova York em 2030 sem carros”

  1. Joana M. Eleutério disse:

    Uma bela utopia que eu espero ver se tornar realidade – em Nova Iorque e por aqui também.

  2. Leda disse:

    Importante saber que há essas provocações de um urbanista. Vamos em frente.
    Parabens.

  3. Olá Leda, obrigado pelo comentário e pela visita.

  4. @iragiv disse:

    Aqui Brasil, Porto Alegre, motorista passa em cima de ciclistas na rua, até quando?o.0

  5. Concordo, Leon. A orla do Rio está infernal, coalhada de marmanjos andando a altas velocidades em skates de 1 metro de comprimento. Tem que imperar a lei do mais vulnerável e menos equipado, ou seja, o pedestre primeiro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.