Tartaruga desavisada põe ovos na praia mais famosa de Recife

Celso Calheiros
23.02.2011


 
Dia de sol, praia cheia de gente e movimento e, sem que ninguém esperasse, sai do mar uma tartaruga cabeçuda (Caretta caretta). Indiferente aos gritos de “não mexe nela, não mexe aí”, a tartaruga marinha se arrasta pela areia, cava um buraco com a dificuldade de quem possui patas para nadar, põe uma quantidade de ovos estimada em 150, tapa o buraco e volta para o mar.

Não é cena de filme, embora toda movimentação tenha sido gravada e postada no YouTube. O cenário é urbano, tudo se passou em Boa Viagem, a mais movimentada praia do Recife. Estavam todos lá: banhistas sob o sol das 13h30, argentinos de passagem pela cidade, crianças que brincavam por perto, vendedores da barraca de coco e até mesmo um policia militar em ação – a manter os curiosos afastados. Todos foram pegos de surpresa com a novidade.

O ninho da tartaruga se transformou no assunto do dia, a partir do fim de janeiro. Em teoria, o litoral pernambucano não faz parte dos pontos de desova das tartarugas marinhas, mas desde que a cabeçuda de Boa Viagem fez sua aparição, outras quatro também desovaram em Piedade e em Candeias, praias vizinhas a Boa Viagem, em Jaboatão dos Guararapes. Foram desovas inesperadas.

De acordo com o Projeto Tamar, as cabeçudas têm hábito de desova no litoral dos estados do Espírito Santo e da Bahia ou no Rio de Janeiro e em Sergipe. Mas também é comum aparecer tartaruga onde não é esperada. As tartarugas de couro (Dermochelys coriace), por exemplo, são frequentadoras do litoral capixaba. No ano passado, algumas delas fizeram desova no Delta do Parnaíba, no Piauí. Sob os cuidados de voluntários e pesquisadores, as tartaruguinhas nasceram dias depois.

Adriano, ambientalista voluntário e candidato a participante do Big Brother, foto: Celso Calheiros

A união entre voluntários e pesquisadores está sempre por perto dos ninhos de tartaruga, da mesma forma que curiosos. É assim no ninho da cabeçuda, em Boa Viagem. O primeiro a chegar foi Adriano Artoni, com carteirinha de voluntário do Ibama, ele montou barraca, cercou o ninho da tartaruga e se tornou o vigia oficial dos herdeiros da cabeçuda-mãe. Já deu entrevista para as emissoras de tevê, conversa com os jornalistas e também dá explicações para os visitantes do ninho – agora totalmente protegido.

A professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Rosilda Barreto Santos, especialista em tartarugas marinhas esteve local onde o acampamento de Adriano foi instalado. Foi feita uma reunião com a pesquisadora, o secretário do Meio Ambiente da cidade, Roberto Arrais, e técnicos do Ibama. Antes, acreditava-se que o ninho era de uma tartaruga verde (Chelonia mydas). Ao analisar as imagens da postura, Rosilda retificou a impressão: a mãe é uma cabeçuda.

Umas das características das tartarugas marinhas é retornar às praias em que nasceram, 30 anos depois, quando já são adultas. Há três décadas, Boa Viagem não possuía calçadão, iluminação com lâmpadas de vapor metálico de 2.000 Watts e a população não era metade dos mais de 100 mil moradores que tem hoje.

Nesse cenário, o vigilante voluntário veio a calhar. Adriano está full time dedicado às tartarugas. Conta com apoio de policiais ambientais, guardas municipais e até soldados do Exército. Afasta-se em missões de resgate ou para apresentações sobre educação ambiental. Todos os dias acena, conversa ou dá explicações para cerca de cem pessoas que passam pela praia. Nos fins de semana, o movimento é maior e Adriano é alvo de pelo menos 300 banhistas que levam os filhos ou são levados pelas crianças. Todos querem ver o ninho da tartaruga. Perguntam quantos ovos estão lá, quando eles vão eclodir, o que ele está fazendo por ali.

Adriano montando guarda no ninho da cabeçuda, foto: Celso Calheiros

E as novidades não param. Por causa da maré que atingiria altura maior, técnicos do Tamar foram ao Recife para transferir os ovos da tartaruga cabeçuda para uma faixa de areia mais distante da linha da maré. Dia 17, a maré alta atingiria 2,70m, um pico. Antes que os ovos fossem afetados pela umidade, foram transferidos para alguns metros mais longe do mar.

Todos querem saber do ninho e das tartarugas. É quase um reality show da vida animal. A missão de vigia oferece uma oportunidade a Adriano. De porte atlético, óculos espelhados, chapéu de aventureiro, camisa e sunga, o ambientalista voluntário também gosta da atenção. Ele confessa que seu sonho é participar de um Big Brother Brasil.

O narcisismo de Adriano está a serviço da natureza. Para começar, não gosta do lixo no lugar errado. Percebeu essa sua sensibilidade em 1987, quando foi trabalhar em Fernando de Noronha. Lá, não se conformava com a quantidade de lixo que aparecia na praia. Ao trocar ideias com um navegante de longo curso, ficou sabendo que o arquipélago tão procurado pelos turistas também é porto da sujeira que os navios despejam.

Em 1994, Adriano foi morar em Zurique, Suíça. Em terras frias, se aproximou do movimento ambientalista. Conheceu militantes da WWF e aceitou a proposta de, na volta ao Brasil, trabalhar como voluntário na disseminação dos princípios de educação ambiental. Em 2000, voltou para Recife. Comprou um pequeno veleiro hobie cat, redes, arpão e fez uma instalação. No mar e próximo às praias de Piedade, Boa Viagem, Pina, Brasília Teimosa, Olinda, começou a retirar o lixo que boiava. A cada fim de semana, recorda, juntava 300kg. Por mês, reunia mais de uma tonelada.

Adriano é bem preparado para atividades de proteção ambiental. Ele participou de campanhas organizadas pela Coca-Cola, onde adquiriu o conhecimento para a qualificação e quantificação dos resíduos retirados. Fez cursos no Senac, onde aprendeu sobre o direito ambiental (até hoje, carrega uma cópia da Lei 9.605 para o caso de precisar mostrar o que é um crime ambiental), e completou sua capacitação em uma série de cursos ministrados pelo Instituto Tríade, ONG recifense que trabalha em defesa da vida silvestre.

No seu álbum de fotos, está lá ele envolvido no desencalhe de uma baleia, com uma grande carcaça de tartaruga em frente a um dos hotéis mais luxuosos do Recife, descendo de rapel a ponte de ferro no centro da cidade, posando na praia cercado por lixo encontrado na areia. Além disso, também mantém um blog, sempre atualizado com suas últimas proezas.

Entre março e abril, é esperada a eclosão dos ovos da tartaruga cabeçuda. Adriano estará de prontidão na Praia de Boa Viagem. Desde a passagem do secretário de Meio Ambiente, Roberto Arrais, conta com a companhia constante de guardas municipais.

Após as orientações da professora Rosilda Barreto Santos, técnicos da Brigada Ambiental, da Empresa de Limpeza Urbana, providenciaram uma proteção o ninho. Rosilda acredita que a tartaruga cabeçuda ficou tão estressada quando foi cercada pelas pessoas, que colocou os ovos em local inadequado. Para protegê-los, o pessoal da prefeitura criou uma barreira com sacos de ráfia cheios de areia.

Também foi instalado um toldo, para manter os ovinhos protegidos de forte calor. A alta temperatura, explicou Rosilda, estimula o nascimento de fêmeas – e há menos machos na natureza. Outra situação incomum foi a tartaruga ter posto os ovos às 13h30. A professora Rosilda conta que, em geral, as tartarugas cabeçudas escolhem à noite para enterrar seus ovos.

A Prefeitura do Recife aproveitou a concentração e criou uma área de educação ambiental, com foco nas tartarugas marinhas, mas também com informações sobre cobras e jacarés. E como última honraria ao fato incomum, próximo ao ninho, o escultor Oscar Luiz John, 36 anos, criou esculturas de areia especiais.

Depois de tanta atenção, só se espera que as tartaruguinhas nasçam saudáveis e, lépidas, voltem ao mar.



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7 respostas para “Tartaruga desavisada põe ovos na praia mais famosa de Recife”

  1. Fortunato disse:

    A natureza é maravilhosa!! Grande oportunidade para a conscientização da população local e turistas, nestes momentos é que descobrimos os atores sociais que realizarão a mudança de pensamento e atitude necessarias a vida em harmonia com a natureza. Parabéns ao Adriano pelo exemplo de amor a natureza e ao planeta!!

  2. wagner poci disse:

    Título e matéria não correspondem à realidade descrita, para variar. Querem fazer crer que a tartaruga e ovos correm perigo de predação “peloserumano”, quando os fatos relatados mostram o exato oposto, um respeito ao animal (próximo à reverência), que o mesmo não encontra nem no próprio ambiente “natural”. Um bebê humano abandonado não seria assim paparicado (sem contar que não descortinaria vaga no BBB). Neste sentido, desavisado de verdade é quem ainda não percebeu (até quando?!) que as coisas mudaram (e continuam mudando, hélas!) desde sempre: os animais, entre eles o “serumano”, se adaptam e já há mais compartilhamento entre uns e outros em ambientes artificiais, construídos, do que nas ditas unidades de conservação, com seu cortejo de mutilados, exilados e refugiados do Admirável Mundo Novo Verde.

    • Wagner, permita-me contra-argumentar. A tartaruga fez uma desova em um litoral que normalmente não é utilizado para desovas, às 13h30 (normalmente é à noite) e próximo da faixa da maré (os técnicos do Tamar fizeram a transferência dos ovos para uma faixa de maré mais segura). Todas essas informações estão no texto e o título faz boa introdução para essa história. De toda forma, obrigado pelo seu comentário. Esse tipo de enriquecimento e troca, só nas publicações na internet. C:

  3. Antônia Héstia disse:

    A natureza deu o recado em horário inusitado e em plena praia de Boa Viagem, neunindo os atores necessários para melhor interpletação do evento.
    Parabéns a todos!.
    Devemos agradecer a dádiva e entrar em sintonia com o cósmico( respeitar o planeta)!!

    Antonia Héstia
    !

    • Antônia Héstia disse:

      A natureza deu o recado em horário inusitado e em plena praia de Boa Viagem, reunindo os atores necessários para melhor interpretação do evento.
      Parabéns a todos!
      Devemos agradecer a dádiva e entrar em sintonia com o Cósmico (RESPEITAR O PLANETA)!

  4. Tarcisio Cordeiro disse:

    Na minha opnião, os aparatos, feito pela prefeitura e outros, esta contra a propia natureza, uma vez que os ovos das tartaruga
    sempre foram colocados nas areias dos litorais sem nenhum toldo nem cobertas, espero para saber se os mesmos vão
    eclodir, de qualquer maneira valeu a intenção, Tarcisio Cordeiro

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